"Dê-me uma selvageria cujo vislumbre nenhuma civilização seja capaz de suportar"

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sábado, 3 de setembro de 2011

Cascaveis - Crotalus sp.

Atenção para a coloração e o padrão de listras.
O guizo desta cascavel ainda é pequeno, indicando
não 5 anos de vida, mas 5 trocas de pele.
(Fonte: Wikipedia)

Serpentes são animais fascinantes, ao mesmo tempo que amedrontadores. Alguns especulam se a fobia que muitos têm por cobras (e aranhas) não possui origem genética, resultante de milhões de anos de envenenamentos desagradáveis, principalmente enquanto ainda eramos pequenos macacos em árvores. Hoje, nossos corpos maiores são mais resistentes aos venenos, mas ainda assim alguns casos podem ser fatais. E claro, o conhecimento pode ajudar, tanto para entender como estes venenos atuam, quanto para responder à eles. Hoje dou início à seção de animais peçonhentos do blog, falando do veneno das cascavéis. Aproveito também para falar algumas coisas gerais sobre cobras e como lidar com elas.

A característica mais marcante das cascavéis (serpentes do gênero Crotalus, nas Américas Central e Sul; e Sistrurus, nas Américas Central e Norte) é o chocalho de aviso, presente na ponta cauda. É um mecanismo do animal para evitar conflitos desnecessários, dizendo "estou aqui, e sou perigoso".

Se você deparar com uma serpente no mato, algumas dicas simples. Sem movimentos bruscos, se afaste lentamente, olhando para ela. Dê espaço para que ela se afaste, e fique longe de um possível bote. Se ela não sair (talvez esteja cuidando do ninho), é melhor fazer outro caminho. Existem algumas técnicas boas para o caso de ter de pegar a serpente, mas eu não vou ensinar isso apressadamente, e você não precisa saber delas para evitar um conflito. A maior parte dos acidentes ocorrem por falta de atenção mesmo, então sempre que estiver nas matas, preste atenção aonde pisa, onde põe a mão, e aos sons.

A espécie de cascavel mais comum é a Crotalus durissus, responsável pela maior parte dos envenenamentos crotálicos (ou seja, causados pelo gênero Crotalus). Desta espécie, existem 5 subespécies no Brasil, e a mais comum é a C. durissus terrificus. O veneno (ou peçonha) delas, como o de diversos outros animais, é composto de uma grande quantidade de proteínas diferentes, muitas delas ainda não estudadas detalhadamente. Apenas as porções mais efetivas do veneno são bem conhecidas, o que já nos dá um bom conhecimento da sua ação, junto das observações dos acidentes.

Basicamente, este é um veneno que ataca nossos músculos estriados esqueléticos, ou seja, aqueles responsáveis pelos movimentos voluntários do corpo. Não afeta músculos cardíacos. Além disso, apenas os menores músculos do nosso corpo serão seriamente afetados, no caso os músculos da face, gerando o quadro conhecido como "face miastênica", ou "cara de bêbado", que é uma característica bastante específica desse tipo de envenenamento. O que ocorre com a pessoa com "cara de bêbado" é que ela não consegue mover alguns músculos da face, que ficam "relaxados" e inuteis (temporariamente).

No local da picada surge certo inchaço, mas sem dor, porque o veneno também possui propriedade anéstésica (que já se tentou explorar medicinalmente). A dor começa a surgir pelo corpo todo, a medida que os músculos vão se debilitando. Também podem ocorrer sangramentos nas gengivas e hemorragias internas. O corpo está ficando aos poucos debilitado. Mas não é essa perda de músculos ou as hemorragias que causam a morte, quando ocorrem, nesse tipo de envenenamento. Estes quadros geralmente são revertidos, com a recuperação do paciente, e geralmente sem sequelas, desde que os rins sobrevivam à maior quantidade de moléculas grandes (provenientes dos músculos destruídos) passando pelo sangue.

A morte dos rins costuma ser o fator de morte nesse envenenamento. O rim começa a mostrar seu enfraquecimento a medida que a urina vai se tornando escura, até se parecer com sangue coagulado. Mas este processo não é rápido, chega a demorar um dia ou mais, tempo suficiente (normalmente) para se obter ajuda, e chegar à um centro de saúde onde exista soro disponível. Ainda assim muitas vezes os médicos nem mesmo aplicam o soro, pois este sempre traz o risco de choque anafilático (é como se seu sangue estranhasse o sangue de outro animal sendo injetado em você, e a reação imunológica à este sangue pode causar a sua morte também), e o corpo têm seus mecanismos naturais de se purificar do veneno, ainda que isto demore tempo, e você fique debilitado devido à tamanha perda de tecidos e sangue.

Outro problema do soro fisiológico é a questão ética do uso de um cavalo para a sua produção. Não digo isso nem por "radicalismo": o cavalo não fica nada bem, mas nada bem mesmo, nesta "profissão", dolorosa e mutilante. De modo que a aplicação do soro como um último recurso pode ser também uma forma de mostrar algum "respeito" ao cavalo, economizando o soro (que foi produzido sem tanto respeito, mas deixemos isso para discutir depois). Outras estratégias paralelas podem ser bem vindas, como o uso de plantas medicinais e alimentos que ajudem a limpar o sangue e fortaleçam os rins e fígado (responsável pela desintoxicação), além do repouso e alimentação adequada. Ter rins e fígado fortes e saudáveis de início já é algo importante nesta situação (portanto, evite as bebedeiras se pretende mesmo "ir para os bosques" algum dia).

Além disso, vale mostrar alguns dados para, no caso de um acidente, não se desesperar. As serpentes não possuem quantidade infinitas de veneno, e seu veneno está na medida para serem eficientes em animais muito menores que nós. Dependendo da distância da cobra na hora do bote, é injetado mais ou menos veneno, e em muitos casos não é injetado veneno nenhum (20 a 40% dos casos, isso para qualquer serpente, são acidentes "secos", sem veneno. As serpentes podem levar até 15 dias para repor totalmente o estoque de veneno). O veneno das cascavéis possui apenas 1,87% de mortalidade, ou seja, de cada 100 acidentes registrados, menos de 2 pessoas morreram (claro que este número será bem maior se os acidentados não procurarem ajuda ou se estiverem sozinhos em uma selva distante). Ainda assim é o veneno mais letal das serpentes brasileiras.

Não deixam de ser muitas mortes, embora muito menos gente do que costumamos pensar quando pensamos em picadas de cascavéis. De fato, é muito melhor levar uma mordida dessas do que ser atropelado por um carro.

É possível identificar serpentes venenosas de não venenosas de longe? Não é tão fácil. A maior parte das características exigem que você chegue perto demais delas. Mesmo olhando para os comportamentos distintos, existem exceções. Portanto, fique longe, e se ela te 'picou' (ou seja, mordeu afundando em você os seus dois grandes glifos, ou "dentes especializados", presentes na frente da boca), é porque talvez tivesse algo a te ameaçar com isso, portanto vá se cuidar!

Esquema de uma serpente solenóglifa, ou seja, peçonhenta, mostrando 
os glifos à frente, e olhos com pulila em fenda, a fosseta loreal, e a narina,
da esquerda para a direita. (Fonte: mochileiros.com, link nas referências)

Referências:

SP Demográfico - Resenhas de estatísticas vitais do Estado de São Paulo, Ano 7, nº3, Agosto de 2006.

Epidemiologia dos acidentes ofídicos nos últimos 100 anos no Brasil: uma revisão. Rosany Bochner e Claudio José Struchiner. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(1):7-16, jan-fev, 2003.

Acidentes Ofídicos. Diversos autores. Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária, Ano VI, Nº10, Janeiro de 2008,

Guia de Vigilância Epidemiológica, Caderno 14; Acidentes por animais peçonhentos; Acidentes Ofídicos. Secretaria de Vigilância de Saúde/MS.

Websites para aprofundamento:

http://www.saudetotal.com.br/artigos/meioambiente/animais/cobras/reconhecimento.asp - Para detalhes da distinção entre peçonhentas e não peçonhentas.

http://www.biovenom.net/v3/node/52 - Banco de dados de venenos de serpentes brasileiras.

http://www.mochileiros.com/serpentes-como-lidar-evitando-encontros-t39479.html - Serpentes, como lidar, e evitando encontros.

4 comentários:

  1. Certa vez dormi debaixo de um bambuzal,de chão varrido, em cima de um banco improvisado, quando acordei ví que tinham duas cascaveis debaixo de mim , botei os pés calmamente no chão e saí devagar, elas ficaram imóveis!
    Nunca levei bote de cobras , elas só atacam se voce fazer movimentos bruscos perto delas ou se voce pisar nela.

    A maioria dos ataques de cobras venenosas, escorpioes acontecem em pastos e terrenos varridos, pois esses são os lugares de animais peçonhentos!
    Costumam ficar também entre as bordas das matas e os pastos(lugar onde atacam suas presas).
    No meio da mata fechada não é comum a presença desses animais peçonhentos, pois é um ambiente em favor de animais grandes, como o homem. Encontra-se mais é cobras nao venenosas como a cobra cipó.
    No documentário do Ernst goetsch, ela fala sobre isso na fazenda dele, lá seus filhos brincam livremente pela mata sozinhos,tem um relato até da convivencia com onças.
    O documentario está aqui: http://www.megaupload.com/?d=81DTNQ5O

    E o da onça aqui http://www.youtube.com/watch?v=6s0mf4prLJI

    Abraços!

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  2. Olá Ludson!

    Obrigado pelo relato. Com certeza existem alguns lugares que as cobras preferem, principalmente lugares como pastos ou bambuzais onde possam existir muitos ratos, suas presas principais.

    Mas, apesar de poderem existir em menores quantidades, dentro das matas é possível ter encontros desagradáveis também. Vários colegas meus biólogos já relataram encontros com cascavéis ou jararacas aqui pela Mata Atlântica, onde estavam fazendo estudos, inclusive uma amiga minha já levou uma picada de cascavel uma vez, que também não foi nada grave. Ela estava no litoral, em São Sebastião, lugar de matas, praias, e cidades, onde qualquer animal não têm muitas opções de ecossistemas onde viver.

    Acredito que, sempre que elas têm opção, vão preferir ficar muito longe de humanos, e preferir capoeiras e bordas de matas, mas hoje em dia elas sobrevivem onde podem (assim como nós, não é? rsrs).

    Assim que tiver um tempinho verei os documentários que você indicou (nesta e na postagem seguinte), e comento também.

    Abraço!

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  3. deveria ter mais informaçoes sobre essa espeie

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