"Dê-me uma selvageria cujo vislumbre nenhuma civilização seja capaz de suportar"

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sábado, 30 de julho de 2011

Sobre folhas e vidas

A floresta respirava calmamente. Perante os olhos do garoto, as folhas, escondidas nas sombras, balançavam em um único vai e vem tranqüilo, e lhe pareciam pequenos serezinhos cochilando, levitando infantilmente sobre o solo. Era noite, e o som dos carros passando na estrada não penetrava na mata, permitindo um ouvir agradável dos vários tons e cantos e zumbidos e farfalhares sutis. Mesmo a viagem de um caminhão dos maiores é ouvida apenas com um ruído suave, como o de uma onda distante quebrando na praia. O córrego que cruza a mata também borbulhava suas notas de lépidos rodamoinhos, somando-se ao coro de músicos invisíveis. O luar e as esparsas luzes urbanas iluminavam o caminho em que o garoto seguia.

Naquela mata, havia sempre uma agradável umidade no ar, não só decorrente das recentes chuvas ou da presença do rio, mas também do próprio ambiente aconchegante e arborizado. Apenas isso tornava o lugar, durante o dia, digno da visita de qualquer habitante das redondezas, acostumado a sofrer cotidiana e torridamente o calor seco da cidade. A visita geralmente passeava um pouco pela trilha. Parava para admirar o rio – que cheirava bem, apesar dos venenos que trazia dos campos – e descansar ao pé de sua árvore preferida ou sobre uma rocha aquecida pelo sol, na beira d’água. Às vezes cochilava, às vezes observava algum animal das matas perambulando, procurando por comida ou companheiros, e às vezes devaneava pensando nas miríades de folhas que podia ver, ou nas outras tantas do livro que levara para ler.

Mesmo com o rio poluído e triste, recoberto vez ou outra por estranhas bolhas, a floresta ainda mantinha a pureza estética e a saúde típica de seus próprios processos curativos. Muitos dos animais que cativavam a simpatia dos vizinhos da mata lá faziam seus ninhos e conviviam em paz – bugios, calangos, pica-paus, gambazinhos, sapos-cururus, ciriemas... Todos vivendo juntos de alguns outros tantos de gatos e cachorros vadios, fugidos de seus donos, desbravadores da nova vida a que se re-acostumavam. E borboletas também, claro. Muitas borboletas, de diversos tons e cores e tamanhos, geralmente vindo saudar logo cedo os visitantes – eram elas as anfitriãs da mata.

A floresta ainda era habitada por muitos outros espíritos. Espíritos sutis, que já ganharam mais atenção no imaginário e nas estórias dos povos de outros tempos e matas. Hoje se escondiam lá, refúgio adequado a este tipo de seres. Vale dizer que, para qualquer mata, não basta beleza e tamanho, quando se pretende a receber seres como estes – mas interessa sim a sua fartura de sombras, e o medo e as ilusões que com elas a floresta é capaz de incutir num eventual visitante noturno. Segundo se contava, os espíritos adoravam pregar peças, durante a noite, ou brincar, durante o dia – por vezes até se fazendo de pássaros e borboletas.

Mas estes seres, vindos de muitas regiões, migrados de outras matas, e de tantas outras árvores queimadas ou transformadas em mobília e carvão... Tinham se tornado, de certa forma, tímidos. Passaram a se mostrar muito pouco aos olhos humanos – talvez os olhos que mais necessitassem e mais se admirariam por vê-los, infelizmente. E à noite, quando dariam sustos de bom grado, os visitantes não vinham mais. Ao menos, era assim na maior parte das vezes.

Escondidos em meio às sombras, entoando seus cantos - que ao visitante soariam como folhas recitando ao vento uma canção de ninar - estes espíritos lembram-se muito bem dos dias em que suas matas foram arrasadas, tendo eles de partir a procura de novos lares. Dias tão recentes para eles quanto o por do sol que o garoto observou a pouco, naquela tarde.

O garoto sempre se utilizava do caminho pelos bosques na volta para casa. Poupava o desvio por muitas ruas, e nunca soube de nenhum assalto ou assassinato por aqueles lados – ao contrário, claro, das muitas histórias que sempre soube ocorrer nas ruas. Além disso, agradava-lhe demais o passeio, ver as árvores, o rio, ouvir a mata e se proteger do calor e da secura no ar. Costumava passar por lá sempre cerca de meia hora antes do pôr-do-sol, ao fim do dia de trabalho. Porém naquele dia ele se atrasou um bom tanto, conversando com alguns colegas de serviço. De modo que quando desceu no ponto de ônibus à beira da mata, já era noite.

Hesitou um pouco, ponderou. E seguiu pela mata. Afinal, conhecia já o caminho muito bem, e sempre teve por certo que por ali, a qualquer hora, estaria muito mais seguro que atravessando o bairro vizinho - ainda mais àquelas horas. Havia um luar muito forte naquela noite, que iluminava o caminho aonde as luzes da estrada e dos bairros vizinhos não chegavam. A trilha era larga e bem perceptível – ou seja, o garoto imaginou que a única coisa que teria de suportar seria mesmo sua imaginação, cobiçada pelas sombras.

Porém os espíritos das matas já há muito tempo vinham observando o garoto, que cruzava por ali quase todos os dias. Algumas vezes ele descansava junto ao rio, noutras vinha lendo alguma coisa interessante, ou mesmo vinha estressado com o trabalho e se acalmava caminhando no bosque. Outras vezes vinha com a cabeça nas nuvens, pensando em algo ou alguém. Em certas vezes vinha até chorando – sua vida também lhe erguendo seus problemas. Vinha sempre sozinho, o que permitia aos espíritos verem os pensamentos mais próprios e mais espontâneos que ele cultivava – pensamentos muito nobres, geralmente. Os espíritos ficaram também sabendo de seus temores, seus sonhos, suas dores, suas derrotas. Tinham tido tempo suficiente para conhecê-lo, julgá-lo, e, alguns, admirá-lo. De forma que não viam nele alguém em quem apenas pregar um belo susto – por mais que o desejassem. Sabiam que, neste caso, valeria tentar mandar uma mensagem mais séria, uma comunicação mais madura. Torciam para que o garoto fosse capaz de recebê-la adequadamente. Afinal, de muito mais do que simples brincadeiras viviam estes espíritos.

Naquela noite o garoto seguiu a trilha, chegando logo ao córrego. O rio ajudou-lhe a se manter tranqüilo, afastando as ilusões e medos com que olhava as sombras. Sabia mesmo antes de entrar na mata que aqueles temores viriam – “naturais” para qualquer humano dos tempos modernos, desacostumados tanto das matas quanto das noites com escuridão.

A luz forte da lua cheia refletia nas águas de maneira única, projetando clarões pálidos na mata, vacilantes. Vistos com atenção, pareciam esconder milhões de seres a dançarem pelas árvores, ágeis e silenciosos. O garoto contemplou a cena, descansou o espírito, e estava prestes a se levantar quando ouviu algo ao seu lado.

Algum inseto grande deveria estar pousado na planta ao lado. Era um canto contínuo, forte, grave e vibrante. O inseto deveria ser bem grande, intuía o garoto, não apenas pelo volume com que o som era projetado, mas também pela maneira com que a planta se movia, ressoando. Mas havia algo no som – e talvez no possível inseto – que não lhe parecia normal. Tinha a impressão que o canto era para os seus ouvidos – apenas para seus ouvidos. Tinha algo de tão intencional quanto um segredo cochichado ao pé do ouvido.

Ele fitou a escuridão por um momento, e uma sensação nova brotou em si, um medo curioso. “Será que algo, alguém, está ‘falando’ comigo?” No mesmo instante o som parou, e ele ouviu um ruído no alto. Ainda antes que pudesse reagir, algo caiu bem à sua frente, ruidosamente, um galho ou um fruto, por pouco não o acertando.

“Se é alguém, devo estar incomodando, tudo bem, vou embora.” Pensou consigo, enquanto imediatamente se levantava, apressado. Voltou a seguir a trilha, porém alguns passos adiante algo mais lhe chamou atenção.

Junto à próxima curva, visível parcialmente através das plantas, uma claridade dourada parecia chegar à mata. Talvez alguma luz da cidade, atravessando lateralmente as copas das árvores, tenha conseguido alcançar, solitária, aquele ermo. Mas, passando por ela, o garoto viu que não. Era aquele lugar que, estranhamente, parecia se iluminar. A claridade de tons dourados lhe permitia ver claramente um pequeno arbusto, denso, de grandes folhas largas em forma de coração. O garoto aproximou-se, olhou por um momento, e ia a tocar o arbusto quando este, mágica e docemente se mexeu, afastando-se carinhosamente de seus dedos impressionados. Pode ver, dentro das folhas do arbusto, um rosto, humano, sério. Um olhar apenas foi necessário para que o garoto captasse todos os detalhes. O rosto tinha uma barba espessa e cor ocre esverdeada, mesclando-se às folhas do arbusto. Grandes vazios onde estariam os olhos, de onde a própria escuridão parecia enxergar. O rosto se mexia e braços pareciam se erguer da moita em direção ao jovem. Mas não era uma atitude hostil. A entidade parecia mais estar vindo ao seu encontro, como que um amigo a cumprimentá-lo.

Porém o garoto não esperou, não pensou, não hesitou, e seguiu apressado pela trilha, quase a correr. Olhando para trás ainda via a luminosidade sobrenatural na planta. Tremia, estupefato com o que lhe passara. Seus pés apressavam-se sozinhos, pois ele não estava em condições de comandá-los o suficiente para uma corrida pela mata. Sentiu que algo por muito tempo escondido em seu ser o impelia a chorar.

Na manhã seguinte o garoto não foi ao trabalho. Acordou cedo, mas ficou um longo tempo deitado na cama, pensando. Chegou a sua casa na noite anterior segurando o espírito em frangalhos e, alegando que não queria jantar, tomou um banho e forçou-se a dormir – para sonhar a noite inteira com aquela figura, fitando-o. Não era um olhar maligno. Lembrou-lhe o olhar de um ancião, como seu avô, a contar histórias importantes de sua vida. Um olhar sério, e também amável, respeitoso. A expressão como de quem ensina algo vital... “Escuta, e ouve teus irmãos.”

Sentia-se, paradoxalmente, muito bem disposto, por mais que a imagem que o acompanhou pela noite o tenha enchido de dúvidas e temores. Manteve-se na cama, e seus pensamentos e emoções da manhã logo se misturaram aos sustos e temores da noite. Por fim controlou-se e súbito tomou a decisão de, antes de mais nada, voltar à mata.

Chegou à trilha, onde a iluminação matinal trazia outros tons à cena. A luz solar enchia a mata de vida àquela hora, e tornava a temperatura muito agradável. Na entrada da mata, o rapaz fez uma reverência desengonçada, como quem entra na casa de alguém respeitosamente, mas não sabendo como tratar o dono. Caminhou mantendo a calma até o ponto onde acreditava ter visto o arbusto reluzente. Encontrou-o, embora não brilhasse. Denso e fechado, as folhas largas em forma de coração a fitá-lo. Fitou de volta por um longo momento, imaginando se algo aconteceria espontaneamente. Até que decidiu tocá-lo.

O arbusto, desta vez, não se mexeu, comportando-se como um arbusto comum. Receosamente o garoto afastou suas folhas, e, para sua surpresa, não viu rosto algum. Viu, ao contrário, alguns frutos ovalados, de cor roxa e aparência suculenta, em pequenos cachos pendentes dos ramos. Pegou um, que se destacou da planta, e observou-o. “A noite poderia se passar por um olho...” pensou, se lembrando que a face que vira não tinha olhos.

Rasgou levemente o fruto com a unha, revelando um interior branco e cheio de líquido. Cheirou, e lhe pareceu agradável. A sensação adocicada no tato e no olfato foi demais convidativa. Sem pensar – e talvez nada mais aconteceria se houvesse pensado - engoliu o fruto.

Quando abriu os olhos novamente, pode ver a Lua cheia. Viu as copas das árvores junto à Lua. Sentiu seu corpo acordar, com algumas dores nos ombros e na região lombar. E se deu conta de que era noite, e de que estava deitado no chão da mata, no meio da trilha, diante do arbusto de folhas em forma de coração. Sentou-se.

Mas desta vez o arbusto não reluzia. E logo percebeu que não via tampouco as luzes da cidade por entre as copas. Permeando a escuridão, havia apenas a claridade da Lua, tingindo a floresta de prateado, e de alguma forma muito mais envolvente do que na noite anterior.

E ele sentiu a floresta respirando. O vento sussurrava-lhe canções. Abrindo os olhos mais atentamente, viu que o arbusto reluzia sim, mas uma tênue luz azulada e dançante. E as outras plantas ao redor também. E logo percebeu pequenos fachos de luz azulada e prateada dançando na trilha e por entre as plantas, voando calmamente ou correndo alegremente no solo. E, levantando-se, viu que as árvores próximas emitiam luzes brancas, sutis. E no alto das copas luzes douradas e esverdeadas dançavam entre as árvores, e também desciam ao solo. E todas estas luzes também passavam bem próximas do garoto, que de tão admirado custou a perceber que também sentia medo, mas um medo pleno e saudável, vivo, que o colocava cada vez mais desperto. Sentia-se entre amigos, e seu corpo lhe dizia que eram amigos de longa data, como aqueles que a muito não vimos.

Olhou para o próprio corpo, e viu que suas mãos ressoavam as canções da mata e delas emanava uma própria luz azulada e sutil. E, sentindo um novo calor em seu peito, percebeu que uma luz avermelhada transparecia-lhe pela roupa, e tingia-lhe a pele, e logo se emanava pelas mãos e pelo ar junto aos outros tons. Ouviu sons na mata, e olhando na direção deles, a claridade deste luar místico logo deu lugar a outras luzes de tom avermelhado forte, que com braços e pernas subiam pelas árvores, e que com asas voavam pelas copas, e que com rostos tímidos o fitavam em olhares de duplos pontos de dourado brilhante. Também viu outros seres de tom roxo-escuro, que se aproximavam pelo chão, hominióides erguidos em pequeninas pernas e passando pelos arbustos, não chegando talvez nem a meio metro de altura. Esses homenzinhos observavam o garoto, alguns no que pareciam sorrir, outros no que pareciam rosnar.

E muitas canções pareciam se unir naquilo que ouvia. A canção resultante lhe mostrava, sem que ele pudesse explicar como, que aquele lugar tinha sua própria alma, e suas muitas almas. Que todas viviam bem, apesar de apenas um pequeno punhado dos milhares de seres que já existiram por aquelas terras. Que viviam em uma harmonia que o rapaz em sua mente não seria capaz nunca de conceber e entender, mas que de fato acontecia, e que seu corpo reconhecia e, cheio de felicidade, agradecia. Que aquela comunidade, aquela vida, tratava sempre com respeito seus irmãos – mesmo e principalmente enquanto tivessem de competir, de se alimentar, de se entristecer.

A canção então mudou de tom, e lhe lembrou da sua humanidade e de seu povo, e de tudo que vinham praticando perante as matas. À mente do garoto vieram imagens de tratores, fábricas, minerações, serrarias, chaminés e caminhões. Árvores sendo marcadas, derrubadas, processadas, escritas e lidas sem que fossem vistas. Ele fechou os olhos, sentindo-se mal, pedindo que a canção voltasse a lhe mostrar a harmonia de antes. As imagens cessaram.

Ele abriu novamente os olhos, e, de fronte dele, junto às miríades de cores que o saudavam ao redor, estava uma figura alta, reluzente de um avermelhado-dourado fogo, com o porte de um humano alto e forte. Acostumando-se melhor à claridade daquela entidade, pode ver o mesmo rosto da noite anterior, fitando-o sem olhos, a pele cor de ocre reluzindo, e a barba grossa dançando como fogo junto a toda a harmonia restante. O garoto fitou aquela entidade com o mesmo medo com que uma criança travessa olha para o diretor da escola, encolhendo-se. A entidade se aproximou, e estendeu um braço, tocando-o. Mostrando que irmão não deve temer irmão. Seu corpo esquentou-se, e ele aprumou-se, sentindo-se mais corajoso e capaz. Fitou de volta aquele ser no vazio de seu olhar, e após um longo momento, subitamente vieram-lhe a mente milhões de acontecimentos.

Viu pessoas caçando, rezando e cantando, e viu pessoas felizes, festejando, viajando e contando estórias ao lado de fogueiras. Viu também pessoas tristes, viu amantes traídos, viu emoções duras ressoarem em mortes. Viu estas imagens correrem de forma demorada, pausada, com anciões indígenas contando calmamente às crianças os nomes de todas as estrelas e todas as histórias de seus ancestrais. E então, depois de longos instantes, viu pessoas guerreando, discutindo e negociando. Viu trocas comerciais, e trabalho forçado, e grandes construções e pessoas obedientes e pessoas gananciosas. Viu a estória de muitos povos, e viu então a história do homem branco, seu povo, uma história correndo apressada contra o tempo que ela havia inventado, dominando a todas as outras, sujeitando a tudo e a todos, enganando-os, derrotando-os, escravizando-os e viciando-os. Viu as cidades erguendo-se, e crescendo, e florestas dando lugar à plantações que se estendiam cada vez mais, precedidas por um rastro de fogo vil. Viu a era das máquinas surgindo, indústrias, ferrovias, rodovias e megalópoles mal-cheirosas e ouviu um profundo e gutural grito, o grito de dor do próprio planeta, ecoado a cada barril de petróleo extraído de suas entranhas – um grito que ressoava em todas as matas e em todos os seres e em todos os seus pesadelos.

Viu que toda a comunidade da vida sofria com aquelas história, viu que toda a vida buscava viver e lutar da melhor forma possível contra a tirania que lhes assolava e assolava o planeta, dominando as mentes, de geração após geração, das pessoas de seu povo. Viu as mãos dos brancos dominando proposital e dedicadamente todas as outras formas de vida que pudessem alcançar. Viu como as pessoas de seu povo agora também sofriam com a perda de algo que jamais conheceram, e que não sabem dizer o que é. Que não sabiam dizer sequer que algo lhes falta - e como esta falta lhes é terrível.

A visão lhe mostrou por fim as matas que seu povo por tanto tempo recusou a conceber. As matas que foram amantes, pais, mães, aliadas e inimigas de outros tantos povos, e que agora eram invisíveis para seu povo. As matas e todos os seus seres, e todas suas cores, e todos seus sabores, e, sobretudo, todas suas emoções. Medo, coragem, vitória, dor, perigo, amor. Toda uma gama de experiências que todas as criaturas compartilhavam, juntas. Experiências que agora um único povo humano tenta dedicadamente banir, negligenciar, artificializar, em uma guerra sem tréguas contra a própria capacidade humana de lidar com o mundo.

E o garoto percebeu que fora convidado pelos seres daquela mata a compreender isso tudo. A perceber, num baque surdo, tudo que ocorria em sua volta, tudo que sempre lhe passou pela frente sem que visse, tudo que lhe disseram sem que ouvisse, tudo que sempre viu acontecer, sem lhe ocorrer que acontecia. Tudo que sempre colaborou que morresse – sem dar o valor devido a tudo que é vivo. Percebeu que aqueles seres e aquela mata não o traziam a um momento privilegiado e numinoso – era sim um momento duro e cruel, uma dor que se fazia necessária ouvir. Um apelo, um grito de socorro, uma mão estendida, uma oferta de ajuda. Aqueles seres queriam dizer-lhe algo, a ele e ao resto do seu povo, o povo perdido. Ao povo dos brancos, dos brancos que negam as cores, e que fingem as cores, as cores que não mais podem ver.

2 comentários:

  1. Escrevi este conto já faz alguns anos, inspirado em algumas experiências. Aproveito para deixar a dedicatória ao grande amigo Gabriel Martone.

    E, para complementar, um vídeo com a mesma mensagem:
    http://www.youtube.com/watch?v=NHEpnc5sdvk&amp

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  2. Querido amigo. É com muita alegria que leio este conto, novamente e em voz alta para todos ouvirem. Saúdo a tua inspiração, saúdo a tua experiência e reverencio através dela e de ti o povo nobre das florestas que ainda vive e que vez ou outra nos chama para ouvirmos suas histórias e canções. Que possamos despertar para nossa herança mais antiga. Agora e sempre! Bençãos das Sidh!

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