"Dê-me uma selvageria cujo vislumbre nenhuma civilização seja capaz de suportar"

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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Mosquitos - Podemos viver em paz com eles?

Fonte: Wikipedia

Lidar com mosquitos é as vezes um desafio. Eles são muitos, incomodam, dão coceiras e deixam feridas. São dificeis de entender, e não raro são vistos até como criação do demônio, por razões óbvias. Para aqueles que, como eu, buscam uma vida nos bosques, são uma ameaça que parece capaz de nos levar a desistir de nossos planos. Mas eu cheguei a uma paz com eles, e acredito que outros podem chegar também. Sem a dependência de repelentes industriais, quero dizer. Para tanto é necessário entender os limites que eles nos impõem, e conhecer as maneiras naturais de se manter menos atrativo à eles.

Para expor como chegar a uma paz com os mosquitos, terei de explicar rapidamente dois conceitos: a co-evolução dos seres vivos e a teoria da trofobiose.

Entendendo que seres vivos evoluem através da seleção natural, adaptando-se às condições do meio em que vivem e do modo de vida que praticam, e que os seres vivos dentro de um ecossistema estão evoluindo todos a cada momento e a todo tempo (não no sentido de algo "melhor", mas no sentido da adaptação, ou seja, da sobrevivência com capacidade de reprodução adequada), a co-evolução é a idéia de que estes seres que vivem juntos estão por isso adaptados uns aos outros. Isso em termos metabólicos, comportamentais, e ecológicos. Um exemplo disso é a resistência a certas doenças que algumas populações de animais desenvolvem, justamente por viverem onde estas doenças existem. Com as relações predador-presa, parasita-hospedeiro, e hematófago-presa, a coisa se dá do mesmo modo (hematófago é o animal que vive de sugar o sangue alheio, no caso, os mosquitos). 

De modo que um índio pode ser mais capaz de aturar os mosquitos de sua região do que um visitante de fora. Este princípio indica que você poderá tolerar melhor (psicológicamente e bioquímicamente) os insetos de uma região onde viveu a vida toda, ou da região de onde sua família ou etnia provém. Além disso, certas espécies de mosquitos são mais restritas à suas matas fechadas, e não frequentam tanto os arredores, de modo que não estão tão acostumados conosco. Quando alguém (ainda mais um animal de grande porte, com sangue bem quente e doce como o humano moderno) entra nessa área, é como se fosse um banquete sendo servido. Neste momento, eu reconheço que não adianta brigar, e eu posso buscar sair da área restrita deles, acapando na beira da mata, por exemplo.

Outra estratégia relacionada a "sair" da área de influência de certos mosquitos é conhecer seus horários. Muitas espécies são conhecidas como mosquitos que "usam relógio", porque por vezes são mais pontuais do que nós. Os horários geralmente são ao amanhecer e ao fim da tarde/anoitecer, mas podem mudar em cada população ou espécie de mosquito. Um dos motivos dessa preferência de horário é que os animais estão acordando ou indo dormir, de modo que não estarão tão dispostos a se defender, e animais de visão à cores (como primatas) têm maior dificuldade de acertar os mosquitos ao crepúsculo. Portanto, na hora do mosquito, você pode se recolher à uma rede mosquiteira, ou ir nadar (mas não saia da água antes deles se recolherem). Os mosquitos de relógio também costumam ser aqueles que vivem cotidianamente além das matas onde dormem, como os pernilongos.

Agora, com relação a teoria da trofobiose, que também está relacionada com a co-evolução. Esta teoria foi proposta pela primeira vez em 1980, por Francis Chaboussou, e se referia à relação das plantas e seus predadores e parasitas. Acabou por se tornar um princípio básico da agricultura orgânica. O princípio da teoria é simples: se você disponibilizar para um inseto fitófago (que se alimenta de plantas) duas plantas da mesma espécie, mas uma bem nutrida e a outra não, o insetos preferem, imensamente, as mal nutridas. Isto se dá porque as bem nutridas conseguem manter a composição de sua seiva adequada. Os compostos químicos da planta saudável estão melhor sintetizados, de modo a não ficar muitas substâncias intermediárias acumuladas na seiva. Além disso o metabolismo da planta saudável não deixa tantas moléculas de açúcares sobrando na seiva. São estas substâncias intermediárias e açucares mal utilizados que os insetos buscam.

Tomando a liberdade de extrapolar este conceito para humanos e mosquitos, o que vêm na mente é a alimentação adequada. Não ingerindo açúcares, gorduras, e proteínas em excesso (vegetarianismo é uma boa opção neste sentido), e se alimentando fartamente de frutas ricas em vitaminas, água, e sais mineirais, (eu tenho efeitos muito bons comendo bastante banana) podemos melhorar a composição sanguínea de modo a tornar o sangue menos "docinho" e espesso, o favorito dos insetos. Eu também complemento minha dieta com leveduras de cerveja, que ajudam a manter os níveis de vitaminas adequados ao organismo. As vitaminas são de grande importância nesta questão, porque elas ajudam na "lubrificação" do metabolismo, auxiliando nas transformações químicas que não queremos deixar estagnadas para os mosquitos. Eu pude testar esta idéia na minha vida diversas vezes, bastante satisfatóriamente. Vale frizar que a ingestão de frutas para este papel não é nas pequenas quantidades com as quais estamos geralmente acostumados a comer frutas. Elas bem poderiam ser a principal parte de nossa dieta diária, sendo ingeridas várias vezes ao longo do dia.

Eu não estou me referindo à idéia de que a vitamina B1, especificamente, quando em excesso no sangue, é liberada pela pele com um odor que não sentimos mas afasta os mosquitos. Eu não desacredito desta idéia, tampouco (inclusive bananas são ricas em B1, entre outras vitaminas). A questão da vitamina B1 é complicada de tratar, e eu teria de desviar um pouco do objetivo desta postagem para discutir algumas questões muito pertinentes da ciência moderna, que vou ter de deixar para outra ocasião. Resumidamente, nos anos 60 estudos comprovaram que a vitamina B1 afastava os insetos, mas recentemente novos estudos alegaram o contrário. Eu procurei estes estudos, pois gostaria de ler e estudar as metodologias detalhadamente. Porém, hoje em dia, para ler muitos destes artigos é necessário que se pague, enquanto outros nem se encontram na internet. 

Eu não acredito que conhecimento deva se tornar mercadoria/posse, então ainda não consegui ter acesso a estes trabalhos (nem mesmo através dos computadores da minha universidade, onde geralmente consigo superar esta questão). Se alguém puder me ajudar, eu agradeço. Por hora, cansei de procurar (já venho preparando esta postagem à algum tempo) e minha opinião atual é de que esta questão envolve muito mais da economia do que parece à primeira vista. Antes, vender B1 talvez fosse uma idéia boa. Hoje, vender produtos mais elaborados talvez seja uma idéia melhor, e isso de usar vitaminas está soando na mentalidade científica moderna cada vez mais "naturalista", no sentido pejorativo. A ciência de base subsidia as industrias farmacêuticas, que têm sempre atacado as medicinas naturais e a saúde natural. Penso que as relações estre estas entidades se tornaram já por demais promíscuas para se manter a confiânça nelas em todas as situações.

Entre B1 ou repelentes modernos industriais supereficientes, eu recomendo as frutas, uma dieta boa e saudável (os mosquitos não vão ser o único problema que será superado) e o conhecimento dos ritmos, agressividade, e demais características das espécies de mosquitos de sua região. Além disso, muitas plantas (como o capim citronela) servem como repelentes naturais, bem menos agressivos à nossa saúde e ao ambiente, e seus extratos podem ser feitos em casa. Não serão talvez tão eficientes quanto os repelentes industriais, mas se estamos buscando uma vida nos bosques, não estamos preocupados com eficiência, mas com o básico. Falarei de algumas destas plantas em próximas ocasiões.

Referências:
Trofobiose:
http://www.amaranthus.esalq.usp.br/trofobiose.htm
http://www.ceplac.gov.br/radar/Artigos/artigo23.htm

Vitamina B1:
http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI3112971-EI8147,00.html
http://law.justia.com/cfr/title21/21-5.0.1.1.2.5.1.11.html
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/4385133
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20195634
http://www.springerlink.com/content/y57l8513l6543524/
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/4389912
http://toxnet.nlm.nih.gov/cgi-bin/sis/search/r?dbs+hsdb:@term+@rn+59-43-8

2 comentários:

  1. O mosquito sabe

    O mosquito sabe muito bem, pequeno como é
    que é um animal de rapina.
    Apesar de tudo
    ele somente enche sua barriga,
    não coloca meu sangue no banco.

    D. H. Lawrence

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  2. Isso explica porque as vezes os mosquitos escolhem um pra atacar! Muito curioso o seu texto, Fe, eu gostei! Vou prestar atenção nisso. Bjao Lela

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