"Dê-me uma selvageria cujo vislumbre nenhuma civilização seja capaz de suportar"

PRIMITIVISMO -- SABERES TRADICIONAIS -- SAÚDE NATURAL -- EVOLUÇÃO HUMANA



sábado, 23 de julho de 2011

Mas e essas Tecnologias?

As tecnologias vão nos salvar? Vão nos arruinar? Ultimamente, os chamados "tecnofóbos" têm se tornado minoria, quase que como uma espécie em extinção. São poucas vozes gritando contra um coro bem coeso. Mas tecnologias não são neutras. Tecnologias causam mudanças e a maior parte destas não depende do modo que empregamos uma tecnologia, mas do fato de que as empregamos. Precisamos prestar atenção para estas mudanças, e saber evitar aquelas que seriam indesejáveis.

Todas as coisas no mundo se influenciam mutuamente, levando a novas mudanças ou à estabilidade das situações. Tecnologias, estando presentes e atuantes no mundo, também. E novas tecnologias vão portanto levar, inevitavelmente, à novas mudanças em uma dada situação (assim como também ocorre com as novas leis, novas pessoas, novas idéias, etc). Tanto mudanças que se espera que elas cumpram, quanto outras, algumas das quais não são esperadas nem pelos seus criadores. Algumas mudanças são até conhecidas, e mesmo desejadas pelos seus criadores, mas não recebem muita atenção em seus discursos devido ao interesse de ocultar estas mudanças enquanto elas ocorrem.

A idéia de que uma tecnologia é neutra, e portanto boa ou má dependendo apenas de sua utilização, é uma mentira completa. Nossa cultura tecnófila faz muito esforço cotidianamente para vender esta mentira, e aceitar-se assim a introdução de qualquer nova tecnologia sem a reflexão adequada.

Em muitos filmes e desenhos se vê a idéia superficial de que uma máquina (como a roupa do Homem-de-Ferro) pode ser usada para o "bem" (ou seja, pelo "mocinho" "salvando" a cidade) ou para o "mal" (ou seja, pelo "vilão" tentando destruir a cidade). Afirmar isso é tentar dizer que um revólver não foi feito para atirar. No filme mais recente do Homem-de-Ferro (Iron Man 2 - 2010), esta lógica é momentaneamente quebrada apenas em poucos momentos, quando o vilão afirma para o herói que ele "perdeu", mesmo que tenha vencido o combate. Ele expõe que a própria tecnologia que criou o homem-de-ferro já está criando também todos seus inimigos, e o pior de tudo isso, cria um clima de conflito bélico cada vez maior, que é exatamente o que toda nova tecnologia bélica faz.

(Fonte: Wikipédia)

Esta mudança de situação (o aumento exponencial do conflito bélico) não depende de se a tecnologia é criada (ou usada) por "mocinhos" ou "bandidos", e tampouco de quem irá ganhar a luta. Mudanças de situações similares ocorrem com outros tipos de tecnologias também: de comunicações, de transportes, de produção, médicas, organizacionais, sociais, etc.

Voltando à idéia inicial, tecnologias causam impactos. Estes impactos são inegáveis a longo prazo, enquanto a curto prazo o glamour da inovação nos rouba o julgamento. Quando a Igreja Católica inventou o relógio, com o único propósito de ajudar com os horários das orações, ela jamais pensou que esta engenhoca iria ajudar a criar uma sociedade laica, através do incremento produtivo alcançado pela burguesia com a contagem do tempo, ruindo assim com a visão de mundo para a qual o relógio deveria ser utilizado. Isto não foi um processo visível no curto prazo, mas hoje é inegável.

Este é apenas um exemplo. Marshall Macluhan, famoso com a frase: "o meio é a mensagem", acabou por criar um novo campo da ciência, a Midia Ecology, repleto de outros exemplos. Um de seus alunos mais famosos, Neil Postman, escritor de "Tecnopólio: A Rendição da Cultura à Tecnologia", entre outros livros e artigos, criou uma pequena lista de seis perguntinhas que pode ser saudável de se fazer perante cada nova tecnologia, para nos ajudar a perceber que conseqüências devem ser esperadas de seu uso (qualquer que seja o intuito pessoal deste uso). 

1 - Qual é o problema, para o qual esta tecnologia é a solução? Quando se analisa qualquer uma das recentes bugigangas do mercado tecnológico, por vezes a resposta pode ser "nenhum", o que deveria ser até um pouco assustador. Se não havia problema, ou nenhum problema sério, porque gastar tempo e dinheiro desenvolvendo a tecnologia? Algumas pessoas nem sequer percebem que tecnologias existem, em teoria, para resolver problemas, e pensam que o simples incremento no relativo "conforto" é justificativa suficiente para tanto trabalho. Algumas chegam ao extremo de aderir à qualquer nova tecnologia ou programa, assim que ela surge, sem sequer esperar para ver do que realmente se trata (os chamados "early adopters").

2 - De quem é esse problema? É um problema de quem? De todos? De indivíduos? Do estado? De algumas empresas? De algumas classes sociais? E quem usará, pagará, ou será afetado pela tecnologia? São as mesmas pessoas? Aliás, sempre se alega que uma tecnologia o deixa livre para ser usada por você ou não, mas dificilmente ela o deixará livre das conseqüências de seu uso por outros (talvez o maior exemplo disto seja a dicotomia carro-pedestre). Uma destas conseqüências pode inclusive ser a "ligeira" pressão social que clama pela adesão dos dissidentes, como vivenciam hoje todos que procuram viver sem celular ou sem computador.

3 - Que novos problemas talvez sejam criados, ao se resolver este problema? Muitas vezes a troca pode não valer a pena. Automóveis aumentaram a velocidade de deslocamento entre comunidades, mas dificultaram o deslocamento dentro de comunidades, já que necessitam de ruas maiores, estacionamentos, sistemas de trânsito, etc. Além disso, nos tornamos dependentes deles, e, portanto, de combustíveis, que não só custam muito trabalho para se obter, como também já prejudicaram duramente a qualidade do ar.

4 - Que pessoas e que instituições serão mais prejudicados pelo uso desta tecnologia? Como exemplos, o rádio prejudica aqueles com má voz, a televisão prejudica aqueles de pior aparência (e isto não é leviano quando se observa o histórico eleitoral de diversos países durante a troca de uma tecnologia para outra). E muitas tecnologias favorecem simplesmente aqueles que têm já muito dinheiro.

5 - Que mudanças de linguagem estão sendo forçadas por causa das novas tecnologias? Pense em palavras como "conhecimento", "informação", "conteúdo", "novo", "viajar", "conhecer", "amigo", "contato", "verdade", "tempo", "comunidade", "grupo", entre outras, e em suas mudanças de significados ao longo das épocas.

6 - Que tipos de pessoas e instituições ganham algum tipo de poder econômico ou político com a introdução desta tecnologia? Esta questão é óbvia quando se pensa em transgênicos e na revolução verde junto aos conflitos rurais e a manutenção de grandes monocultivos.

 (Imagem do documentário "What a Way to Go: Life in the End of the Empire" (2007) 

Olhar conscientemente para a adoção desenfreada de novas tecnologias, como ocorre na sociedade moderna, pode ser desanimador, mas é necessário. Já faz algum tempo que somos mais usados pelas tecnologias do que o contrário. Basta criar algo brilhante, ou "funcional" ou "eficiente", que ele é imediatamente engolido pela sociedade e pela cultura, mesmo que seja um veneno para as relações humanas. (Um exemplo é o "aparelho do sexto sentido", algo que para mim só poderia ser concebido e aceito em uma cultura já totalmente estupidificada: http://www.ted.com/talks/pattie_maes_demos_the_sixth_sense.html)

Pretendo em breve analisar tecnologias em postagens individuais, já que elas podem ser observadas sob vários aspectos do que tenho trazido ao blog (primitivismo, saúde natural, evolução humana, conhecimentos tradicionais). Exemplos vão desde coisas modernas, como o ar condicionado e a internet, até coisas muito mais antigas como a escrita, a música, e a linguagem. E acredito que estas reflexões podem ajudar muito na busca por uma vida nos bosques.

31 comentários:

  1. A tempo de esclarecer algo essencial aos olhos de muitos: se eu me digo "primitivista", e criticando a internet e tal, mas estou usando um computador e tudo isso... isto é hipocrisia? E, em caso positivo, esta hipocrisia invalida meus argumentos?

    Respondendo à esta questão, usarei a imaginação para um pequeno exemplo.

    Imagine que em um outro planeta distante, exista uma sociedade que vive exclusivamente de um único tipo de alimento. Todos na sociedade precisam se envolver na produção coletiva deste alimento, caso contrário as refeições não ficam prontas e todos passam fome. Quando todos trabalham juntos adequadamente, todos se alimentam, mas tampouco sobra qualquer migalha, de modo que todos estão bem presos àquele sistema de produção, e o sistema de produção está bem preso à sociedade. Agora imagine que alguns indivíduos, uma pequena minoria, começam a fazer alguns experimentos visando entender melhor a função daqueles alimentos em seus organismos, e com isso chegam a uma verdade chocante: o alimento mata a fome do dia, mas no longo prazo, causa a perda de visão. Inconformados, passam a estudar os esqueletos de seus ancestrais e percebem que de fato, antigamente, aquele alimento não era consumido, e que os ancestrais daquelas épocas não desenvolviam a cegueira que todos os seus contemporâneos esperam desenvolver em uma certa idade, já tida como natural.

    Começam a publicar então seus dados, criticando a alimentação que a sociedade possui atualmente. Esperavam, entretanto, que isto levasse outras pessoas a concordarem com eles e se prepararem para uma nova forma de alimentação, que só pode ser alcançada através de esforço coletivo global, mas se surpreendem, ao ouvirem a resposta: "Vocês criticam este alimento, mas também estão comendo ele! Hipócritas! Contraditórios!". Os críticos ficam abismados, e tentam mostrar que eles sequer têm a opção de comer outra coisa, já que a cultura não conhece outros tipos de alimentos, mas são ignorados. Alguns corajosamente resolvem se arriscar e procuram mudar de alimentação de qualquer jeito, o que os leva a buscas desesperadas por outras soluções e ao afastamento do restante da sociedade, mas logo desaparecem e ninguém mais ouve falar deles, até que eventualmente algum deles é encontrado morto ou moribundo em algum lugar.

    Retornando ao assunto, que é a crítica ao que ainda não se pode dispensar, o meu ponto é o seguinte: se nos restringirmos à ouvir apenas as pessoas que vivem inteiramente hoje do jeito que pensam ser melhor viver, iremos ouvir bem poucas críticas, e o mais provável é que não ouviremos nenhuma. Claro que isto não pode ser entendido de forma relapsa: não quero dizer que não se deva tentar mudar individualmente aquele hábito que se pensa ser errado. Sempre que pudermos fazer isto, devemos fazê-lo, claro. O problema é que nem tudo que pode merecer sérias críticas é suscetível a ser mudado por uma escolha indívidual. É o caso de muitas tecnologias, principalmente aquelas relacionadas à comunicação, como a internet.

    Costumamos entender a internet como uma ferramenta a disposição, algo que depende de opção. Porém isto só pode ser entendido assim quando se está optando por usá-la. Quando se está optando por não usá-la, se percebe cada vez mais claramente o quanto coagidos a usá-la, cotidianamente, somos. Isto é particularmente mais verdadeiro em países mais desenvolvidos que o Brasil, que mostram o futuro de um caminho que já estamos trilhando. Nos EUA, por exemplo, muitos órgãos públicos exigem que o solicitante se encaminhe a eles apenas pela internet, tendo alguns dos antigos sistemas de formulários a mão, ou mesmo por telefone, já sido descartados.

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  2. Não vejo nada de errado em usar a tecnologia do sistema para quebrar ele e a própria tecnologia, é necessário analizar apenas a eficiencia do ato.

    Sobre tecnologia em sí, como o Zerzan e o Derrick dizem; imagina voce vivendo numa ecovila sustentável, alguém do grupo fala que quer construir um computador... deixe ela tentar e verá os requisitos que precisará para fazer isso: divisão de trabalho, de classes e exploraçao dos que terão de trabalhar pesado nas mineradoras para manter a base industrial tecnologica necessária para produzir tal equipamento (ou horas e horas de pesquisa científica em um laboratório) isso levariam todos novamente á civilizaçao e a alienaçao do mundo natural, fazendo os indivíduos envolvidos praticarem os piores absurdos..

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  3. Confira estes videos que esbarram no tema:

    (http://www.youtube.com/watch?v=l7AWnfFRc7g&feature=youtu.be)

    &

    (http://www.youtube.com/watch?v=NugRZGDbPFU&feature=player_embedded)

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  4. Felipe,


    Ficou muito boa essa postagem cara, parabéns. Gostei muito do modo como resumiu a crítica à neutralidade da tecnologia e o exemplo do Homem de Ferro. Tem outros detalhes que eu adicionaria: Se você considerar que a civilização é a guerra do homem contra a natureza, toda tecnologia civilizada é bélica.

    Gostei do exemplo do relógio, acho que ele é mais significativo do que parece, e pretendo usar esse exemplo num artigo que vou escrever.

    Também gostei muito das perguntas do Postman, e acho que há muito mais que se pensar sobre cada uma delas.

    Também gostei muito da metáfora que você usou para explicar a validade da crítica à tecnologia. Eu prefiro usar o termo "dependência tecnológica", porque isso deixa mais claro o que eu quero dizer. Porém, sua metáfora poderia ser interpretada como uma sugestão de que o problema não está naquele alimento especificamente, mas em comer um único tipo de alimento. Alguém poderia dizer que o correto seria comer esse alimento também, mas não somente ele. Além disso, a restrição alimentar um único tipo de produto quase deixa de ser metáfora e se aproxima de uma crítica direta à nossa sociedade, que também é dependente de agricultura e de uma meia dúzia de grãos para se alimentar, em meio a tanta diversidade que existia antes.

    Quanto ao comentário do Ludson, eu concordo que é possível usar a tecnologia contra a civilização. Mas para isso não basta o critério de eficiência, que também é civilizado. Uma tecnologia pode ser usada quando nós já não atribuímos a ela o mesmo sentido que a mentalidade civilizada atribui. Não basta uma análise de vantagens e desvantagens, é preciso uma análise de valores, senão até mesmo a tecnologia mais danosa ai parecer vantajosa e benéfica sob certo ponto de vista.

    Abraços

    Janos

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  5. O primeiro vídeo sugerido pelo plenosol é na verdade uma defesa da civilização. O vídeo afirma que a expansão da sociedade civilizada provocou também um aumento na coesão e uma aplicação na identificação entre os membros da espécie humana, e trata isso como uma algo inerentemente bom. A "fraternidade universal" também é um ideal cristão, mas o que temos hoje é apenas globalização. E a globalização pode significar maior cooperação entre as pessoas, mas no fundo elas não estão cooperando umas com as outras enquanto seres humanos, mas cooperando entre si enquanto cidadãs, para o benefício da sociedade civilizada. Os seres não-humanos e a biosfera são incluídos de acordo com os critérios humanos.

    Este argumento de que a socialização humana melhorou com o avanço da civilização me parece um tipo de defesa do ideal de progresso, e é defendido por pessoas como Roger Ellman e Milton Friedman. É um argumento que deve ser melhor analisado, pois pode esconder ideologias bem complicadas.

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  6. Plenosol, obrigado pelas sugestões.
    Finalmente pude ver os dois vídeos. Desculpe se a crítica parecer chata e cansativa, porém sinto necessidade de concordar com a visão do Janos e deixar algumas coisas claras.
    Eu entendo porque colocou os vídeos, e entendo que vê o lado bom destas idéias, que têm tudo a ver com seu trabalho. Para quem não o conhece, o plenosol é amigo meu e trabalha com desenvolvimentos de tecnologias solares de baixo custo (fornos, fogões, secadores, etc): http://plenosol.wordpress.com

    Os insights dos vídeos são importantes para um trabalho deste tipo, e eu também valorizo muito estes insights e o trabalho. De fato precisamos de mais tecnologias solares como a que ele está produzindo, e precisamos desenvolver o conhecimento relacionado à esta ciência. É um caminho muito mais interessante do que a criação de hidrelétricas, células fotovoltáicas, fazendas de vento, ou usinas nucleares, sendo sustentável de fato.

    Espero que as críticas aos aspectos negativos dos vídeos não desestimulem sua participação!

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  7. Desculpe se tomo muito tempo rebatendo detalhes mínimos de algum dos vídeos! É que, se tratando de questões que o blog visa discutir, eu não podia deixar passar.

    Concordo com a crítica que o Janos fez do primeiro vídeo. Complementando, a leitura que o vídeo faz sobre evolução humana é completamente errônea e superficial. Quando representa os modos de pensar de várias épocas, retrata quase como uma escala evolutiva (os dois vídeos fazem isso) e não retrata nenhum civilizado pensando em sexo, apenas o primitivo, o que é uma piada (hoje nossa sexualidade e nossa mente sexual é muito mais estimulada que naquelas épocas).

    Além disso, o pertencimento como razão cognitiva só havia de fato entre os não-civilizados do exemplo. Hoje nos enxergamos como membros de uma pátria, mas isso não tem NADA em comum com o modo que os membros de uma tribo se vêm como pertencentes à uma tribo. Falei sobre essa questão, inclusive com pequenas discussões com Janos, nas postagens "Escolha e Identidade" e "Sentimento de Pertencimento". Além dissso, a interpretação bíblica da Eva Mitocondrial e do Adão do cromossomo Y foi superficial e enganadora. Os dois sequer viveram juntos na mesma época. Do jeito que foi colocado, ignorou-se muito de genética e evolução de populações.

    A idéia de um "outro" antagonista ao que é tido como grupo identitário não depende de se conhecer ou não o outro de perto. Isso é também uma interpretação muito superficial do fenômeno. Na formação de identidades construímos também aquilo que não é nossa identidade, e isso acontece com humanos de todas as épocas e lugares, e isso não necessariamente implica em conflitos ou em não associabilidade de idéias. Hoje estamos podendo pensar em abarcar tudo na "civilização empática" porque não temos mais identidade alguma. E isso não é algo bom.

    Os não-civilizados costumeiramente apresentam muito mais empatia com as outras espécies do que nós sequer seremos capazes de fazer, pelo simples motivo que não temos mais o convívio com elas (assim como também não temos convívio com a maior parte das pessoas das nossas religiões ou nações).

    O segundo vídeo traz também um certo progressivismo quando aponta para uma tendência de maior conectividade entre as tecnologias ao longo do progresso da civilização. Não percebe o outro lado da moeda deste processo, que inclusive tem a ver com o que o primeiro vídeo também omitiu da história humana (no sentido de história natural, englobando também o que alguns chamam de "pré-história").

    Mas, a sacada principal deste é importante, e antropólogos já haviam percebido isso. Claude Levi-Strauss, se não me engano, escreveu sobre isso, relacionando a maior quantidade de invenções técnicas provenientes das civilizações européias devido ao contato que aconteceu lá entre muitos povos, tanto por questões de vizinhança, quanto por questões comerciais.

    Eu acho que, embora a inventividade humana seja importante e louvável, deve-se tomar cuidado com os discursos que dizem que inovar por inovar é uma coisa boa, que é algo que parece estar nas entrelinhas dos dois vídeos. Isso é a tecnofilia. Além de crença no mito de que a tecnologia resolverá (ou resolveu) todas as questões existênciais humanas. Nenhuma tecnologia pode ajudar a resolver as questões existênciais humanas, porque elas são filosóficas, não materiais. Tecnologias materiais, podem, no máximo, nos impedir de pensar nelas, ou dificultar/ajudar no convívio humano. Penso que a internet e as demais tecnoligas de massa (indo desde a escrita, no sentido amplo) têm mais atrapalhado do que ajudado. Mas falarei mais disso em algumas postagens futuras.

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  8. Janos, com relação à metáfora que usei, sie que toda metáfora é limitada. A idéia é mostrar que se têm o direito de valorizar algo que não se pode fazer, mesmo que isso, após ser ouvido, seja automaticamente transformado (o que é de se esperar que em algum momento ocorra com a população do exemplo, e é o que os críticos querem).

    É, eu não tinha notado como têm a ver com nossa alimentação civilizada, hehehe. Bem lembrado.

    De todo modo, creio que em termos tecnológicos, não é tão facil quanto se propõe a adoção de um paradigma de múltiplas tecnologias. Claro que podemos usar o telefone e o celular (embora eu pergunte por quanto tempo ainda poderemos), mas existem tecnologias que substituem outras, e criam paradigmas inteiros segundo suas condicionantes. Mesmo a escrita, quando foi inventada, mudou o modo de pensar até de quem não sabia ler ou escrever, mas que fazia parte da mesma sociedade. A oralidade começou a morrer tão logo a escrita foi inventada, por mais que muitos (a maioria) fossem ainda analfabetos e tivessem muito mais conhecimento do mundo do que os letrados (governadores e comerciantes). Do mesmo modo, o dinheiro suprimiu as relações de dávida ou de dar-receber-retribuir. O carro dificultou a vida de todo mundo, quer você vá de bicicleta, carruagem, ou a pé. A idéia de escolas não aceita outra tecnologia social de transmissão cultural aos jovens. Os desastres nucleares continuariam acontecendo, mesmo que ao lado das usinas houvessem painéis foto-voltáicos ou fazendas de energia eólica. A televisão mudou o jeito de se fazer notícia, e os jornais tiveram que mudar junto, e agora televisão e jornais mudam novamente para se adequar ao modo que a internet mudou tudo, porque cada uma destas invenções prezou por um padrão cognitivo particular, e este padrão cognitivo não é confinado ao uso de uma dada tecnologia que o fortalece, mas acaba forçando outros padrões de menor força na sociedade.

    Enfim, trouxe alguns exemplos, mas também não deixo de aceitar que sua crítica à metáfora faz todo sentido, porque ela incorre nesse problema mesmo e exige inclusive esse tipo de adendo na conversa.

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  9. Ludson, obrigado também pelo comentário. Concordo com você claro. O Janos deu uma cutucada importante, analisar pela eficiência não é o essencial, mas creio que vocês discordam mais nas palavras do que nas idéias. Afinal, queremos poder nos livrar de algumas dependências, e estamos procurando os meios para isso.

    Abraço!

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  10. Prezado Felipe...

    Não sei nem se posso considerar o seguinte uma crítica, visto eu estar desnorteado com uma série de afirmações que me soam por completo infundadas. Portanto, irei elencá-las aqui apenas para saber se poderiam ser melhor explicadas antes que eu possa de fato refletir sobre a validade da idéia central.

    1 - De onde tiraste a afirmação de que os relógios foram inventados pela Igreja Católica? http://en.wikipedia.org/wiki/Clock

    2 - Você não vê um problema estrutural em utilizar um filme de super heróis (cujas descuidadas ficções são essencialmente neotecnofóbicas http://www.xr.pro.br/Ensaios/Genio1.html) para refletir sobre questões reais?

    3 - Você não vê necessidade de justificar, ou já justificou em algum outro texto, a fortíssima afirmação de que a idéia de que as tecnologias sejam neutra é completamente mentirosa? O mais próximo que vi de uma tentativa de demonstrar isso foi o argumento do revólver. É claro que o revolver é feito para atirar, mas dar um tiro é sempre essencialmente mau?

    4 - Partindo do insight do item 2, baseando numa ficção sem qualquer compromisso de ser verossímil, como você justifica, COM EXEMPLOS REAIS, a idéia de que toda tecnologia bélica causa uma escalada nos conflitos, evidentemente com sua propria utilização? Como explicaria então que 70 anos depois da primeira detonação nuclear ainda não nos destruímos numa hecatombe global e armas nucleares nunca mais foram usadas? E porque mais de 100 anos depois da invenção da guerra química, essas armas praticamente pararam de ser utilizadas, não tendo sido usadas em campos de bataha em escala minimamente notável sequer na Segunda Guerra, enquanto o foram maciçamente utilizadas na Primeira?

    5 - Não sente uma necessidade de justificar melhor o uso da internet para divulgar uma ideologia que seria essencialmente contrária a mesma? O exemplo da comida, dado no comentário, é completamente deslocado do assunto, visto que os indivíduos morreriam sem se alimentar, ao passo que diversas tecnologias que possuímos podem ser completamente ignoradas sem qualquer risco a saúde, e muitas pessoas e comunidades de fato o fazem. Você poderia divulgar essas idéias por panfletos nas ruas, livros, palestras ao vivo, com alta possibilidade de atingir efetivamente um público até maior. Embora, é claro, estaria usando tecnologias também.

    Bem. É só isso. Como sabe, discordo totalmente da tese central de que algumas tecnologias sejam inerentemente más. Afirmo sem medo que TODAS SÃO NECESSARIAMENTE NEUTRAS. E você também conhece outras de minhas idéias.

    Mas aqui fica até difícil discutir essa tese central com tanto ruídos argumentativos entre nossas visões de mundo.

    Amigavelmente

    Marcus Valerio XR
    xr.pro.br

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  11. Olá Marcus! Bom tê-lo aqui nesta conversa.
    Agradeço também por me fazer reler este texto, que já tem um tempinho.
    Também peço desculpas pois só agora pude perceber que muitas coisas ficaram pouco explicadas, devido ao esforço de reduzir o tamanho do texto. Natural que você tenha se sentido desnorteado e confrontando ruídos. Na época que escrevi este texto, vinha lendo as obras de Postman e discutindo-as com um grupo de estudos da universidade e com outros amigos, como o Janos. Por isso, se após este comentário ainda houver coisas e/ou trechos que estejam te deixando maluco, por favor, os realce.

    Falando nele, se não me engano é do livro dele que tiro a referência à invenção do relógio pela Igreja. Mas vamos entrar então nos seus tópicos levantados.

    1 - Mesmo no artigo que você puxou no wikipedia é possível confirmar o que eu disse, veja o trecho, por exemplo, no subtítulo de "primeiros relógios mecânicos"*, que começa em "Between 1280 and 1320, there is an increase in the number of references to clocks and horologes in church records..." e termina em "the installation included the full-time employment of two clockkeepers for two years.[citation needed]" (dá uns 4 ou 5 parágrafos ao todo, e eu ia copiar aqui mas não há necessidade e assustaria os leitores)

    Veja bem, neste artigo da wikipedia, qualquer aparelho de medição de tempo é considerado um relógio, enquanto que relógios mecânicos, automáticos, que soam as horas sozinhos e que possuem precisão de minutos, são chamados de "relógios mecânicos". No meu artigo eu me referi à eles de modo diferente (e talvez incorreto, é verdade, mas procurando ir mais ao cerne do uso coloquial nosso), pois quando disse que a "Igreja inventou o relógio", me referia à estes mecanismos elaborados de medição do tempo, automáticos, capazes de nos lembrar das horas, soando alarmes.

    Ou seja, colocando de outro modo, sim, relógios de sol, relógios de água, ampulhetas e outros mecanismos similares são "relógios", mas não são relógios como os que temos hoje em dia. Relógios de sol nada mais eram do que um instrumento de ver a "hora relativa" do dia pelo sol, algo que muitos conseguiam fazer sem um relógio de sol para ajudar; ampulhetas medem apenas um trecho de tempo decorrido após sua virada; já os relógios de água admito que não sei nada sobre eles, e não sei se podiam ser usados para muito mais do que os exemplos anteriores.

    Porém os relógios mecânicos que soavam nos altos das igrejas são uma transformação total do modo com que humanos e seus marcadores de tempo interagiam. Os relógios que as Igrejas incentivaram o desenvolvimento nos lembravam das horas mesmo que delas tivéssemos nos esquecido, e contavam elas mesmo que não estivéssemos presentes. Era a virada crucial para o que possibilitaria termos hoje, por exemplo, o relógio despertador. Que, para todos os efeitos, é algo completamente diferente de ampulhetas e relógios-de-sol. A grosso modo (bem grosseiro mesmo), antes, nós lembrávamos os relógios das horas (dando-lhes corda, virando o vidro, etc). Hoje, os relógios é quem nos lembram das horas. Esta transição foi incentivada pela Igreja Medieval (que afinal era quem dizia o que podia ser desenvolvido ou não na época), com o intuito claro e declarado de ajudar nos horários de orações.

    Algumas referências à trechos do Postman sobre o assunto (que até eu irei reler)
    https://w2.eff.org/Net_culture/Criticisms/informing_ourselves_to_death.paper
    http://graciodeo.wordpress.com/2010/09/07/the-mechanical-clock-from-god-to-mammon-insights-1-from-neil-postman’s-technopoly/

    Você também pode pegar umas palestras dele no youtube ou os livros dele, são sensacionais. E creio que você gostará.

    Gostará principalmente porque ajudará a entender meus próximos pontos à suas perguntas.

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  12. 2 - Sim, há muitas histórias de ficção tecnofóbicas, incluindo aí algumas de super-heróis. Porém, além de discordar de várias de suas análises (e uma vez já debatemos sobre estes seus artigos), você há de concordar que os filmes do Homem-de-Ferro, em particular, são 90% tecnofílicos. Aqui também comentaria (de novo) que, nos seus artigos sobre "medo/ódio ao gênio", você está, a meu ver, confundindo desenvolvimento técnico ou tecnológico puro com sabedoria. Você leu meu artigo sobre a invenção da escrita? Povos orais são sábios. Povos letrados possuem conhecimentos, mas não necessariamente (e não provavelmente) sabedoria. Mas isso vou ter de deixar em aberto por hora.

    3 - Dar um tiro não é essencialmente mal. Mas é essencialmente diferente, completamente diferente, de dar uma facada. Essa é a mudança que a arma de fogo trás. E é isso que você não percebe quando digo que a tecnologia não é neutra. EU NÃO ESTOU DIZENDO QUE ELA É MÁ POR NÃO SER NEUTRA. Neutro é aquilo que não causa diferenças, ou mudanças, por si só. Toda tecnologia causa mudanças (a maioria das quais são a própria razão de ser da tecnologia, pelo menos as melhores tecnologias).
    O que talvez também esteja indo no ruído é que eu, nem Postman, nem o Janos, nem ninguém, somos, à rigor, contra o desenvolvimento de novas tecnologias ou técnicas. Nós somos contra o desenvolvimento irrefletido, para colocar em poucas palavras. Eu mesmo citei em outro comentário acima alguns exemplos de tecnologias que acredito que deveriam ser mais desenvolvidas no futuro próximo. Contudo, sei que trarão câmbios de poder e de relações sociais na nossa sociedade. Alguns até inesperados. Mas ok.

    Mas deixe eu voltar à questão da arma de fogo antes de ir além. O surgimento de armas de fogo, por exemplo, levou à uma transformação fundamental na nossa civilização, que é o controle da posse de arma e da violência armada pelo Estado. Antes das armas de fogo se popularizarem, qualquer um podia andar na rua com seu sabre na cintura. Era uma peça de roupa da nobreza e também de qualquer cidadão que se considerasse capaz de se defender. Porque era muito mais difícil matar alguém com um sabre do que com um revólver, e era muito mais fácil se defender de um agressor com um sabre usando outro sabre (onde poderia muito bem resultar num conflito com machucados mas com nenhuma morte) do que se defender de um revólver usando outro revólver (o que mais frequentemente termina em pelo menos uma morte, se não na morte de ambos). E é nessas alterações nas relações, por assim dizer, "ecológicas" da sociedade que nós dizemos que nenhuma tecnologia é "neutra". NÃO se trata de se discutir se ela faz o "bem" OU faz o "mal", mas sim de que faz MUDANÇAS, e claro, algumas destas mudanças podem não ser boas, ou más, ou neutras, para todos os grupos sociais envolvidos. (o monopólio da violência pelo estado é bom para o Estado, mas altamente discutível se é bom para todos... não que eu tenha uma opinião sobre esse ponto em questão).

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  13. 4 - Touché. Sim, aqui você fez um bom argumento. Porém, perceba que este argumento é baseado em uma condicionalidade. Pois resumido, seria assim: "desenvolver armas mais potentes foi bom porque ATÉ AGORA elas nos evitaram novos conflitos de escala global".

    Além disso, acredito que as populações exterminadas (completamente exterminadas, coisa que nenhuma guerra teria sido capaz de fazer antes disso) em Hiroshima e Nagasaki discordariam de você.

    Neste tópico ainda, considere o seguinte:
    - Milhares de anos atrás, se meu líder me mandasse matar pessoas do povoado vizinho, eu teria de levar meu machado de pedra e madeira, muita coragem, e rezar para ser mais forte do que o machado e a mão do defensor. Teria de me aproximar do inimigo, ver sua cara de pavor, de ódio, de medo, ou de dor. Ou tudo isso junto. Teria de ver o sangue, o cheiro de tripas e fezes saindo pela barriga de alguém eviscerado, etc. Teria de me limpar depois.
    - Se eu tenho uma lança, e uma pontaria e um braço muito bom, posso evitar estar tão próximo da sanguinolência e do perigo.
    - Se eu tenho um arco, posso estar ainda mais distante.
    - Se eu tenho uma arma de fogo, nem preciso ter um braço forte, e posso derrubar até um cara muito maior do que eu.
    - Se eu tenho um porta-aviões, um jato de bombardeio, ou um drone de combate, posso sequer acreditar que se tratam de humanos do outro lado. Começam a se tornar apenas números.
    As diferenças entre estas situações é APENAS e tão somente derivada da tecnologia empregada, não da sua razão, se a pessoa do outro lado merece ou não morrer, etc. Pode muito bem ser que mereça sim. Mas há diferenças entre estas formas de relações entre humanos e suas formas de resolver conflitos, e estas mudanças são suficientemente fortes para afetarem os rumos sociais/educacionais/culturais/econômicos, mesmo que de maneira benéfica. Só NÃO podemos dizer que não há diferença, que é o mesmo que dizer que tal coisa seria "neutra".

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  14. 5 - Caso ainda não tenha ficado claro: eu não sou contra tecnologias per si. Na verdade o próprio título deste meu artigo é exatamente para focar nesta sua pergunta: "você não está sendo incoerente? Falando de natureza aqui na Internet?".
    Será mesmo que meu exemplo é diferente do exemplo da comida? Vamos ver suas colocações sobre isso:
    Poderia publicar panfletos, livros, palestras ao vivo, etc. Sim, poderia. Poderia alcançar até talvez um público maior? Francamente, esta sua afirmação é irrisória. Mesmo que eu consiga, digamos, me tornar um palestrante ou um autor famoso sem o uso da internet, o que é altamente improvável (como divulgar as palestras, contactar editores, organizadores, e mesmo me manter presente na cultura popular, sem hoje usar o principal, e logo o único, veículo de transmissão cultural de massa da nossa sociedade?) jamais alcançaria tantas pessoas, e a tão baixo custo (econômico, pessoal, laboral, ecológico, etc). Tipo, você mesmo não estava acreditando nisso quando falou, e me surpreende ter dito algo assim em uma postagem que até então estava super educada, pois pareceu uma tiração de sarro, se for ver bem.
    Posso eu ignorar a internet sem risco à minha saúde? Será mesmo?
    Vejamos, será que eu conseguirei me manter no meu emprego se deixar de usar a internet? Será que conseguirei encontrar outro? Acredito que cada vez menos pessoas estejam capacitadas a responder "sim", com tranquilidade, à estas perguntas. Se é que ainda existe alguma.
    E se cara pálida não trabalha, cara pálida não come, não é? hehehe
    No mais, vários dos indivíduos que frequentam meu blog e comentam e dividem conhecimento (Janos, Ludson, pra citar os que estão nesta página) me conheceram tão somente graças à internet.
    Isso significa que eu estou devendo à internet uma saudação, uma retribuição amorosa, um compromisso eterno de sustentá-la? NÃO.
    Significa que, HOJE, a nossa sociedade USA e PRECISA da internet. E alguém correndo por fora desta tecnologia só conseguirá capilaridade na sociedade até certo ponto, e não mais. Queremos mudar essa realidade atual, onde, COLETIVAMENTE, usamos e precisamos da internet, mas esta mudança não pode ser feita apenas por decisões individuais e marginais a tudo mais que a sociedade está construindo coletivamente.

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  15. (pra concluir..)

    Fora que, à rigor, nós (pelo menos não eu ou qualquer outro primitivista que eu tenha ouvido sobre isso) não queremos o fim da internet. A internet, em particular, é uma tecnologia que, agora que está aí, a sociedade globalizada pode ruir do dia pra noite que com muito pouco esforço podem se manter alguns servidores ainda funcionando, conexão por telefone, etc.
    Existe outra coisa muito importante que Postman e Macluhan (seu mentor) ensinam: tecnologias não somem. Elas continuam no mundo, até que outra tecnologia melhor a substitua, ou até que humanos desapareçam completamente. Uma vez inventada e popularizada, a tecnologia nova causa suas mudanças "ecológicas" e então fica. Não há governo totalitário que possa destruir a invenção do carro, ou a invenção da internet. Podemos, sim, um dia não mais possuirmos combustível para os carros, ou ter como repor os cabos de telefonia, e então iniciaria o processo de esquecimento, mas até lá, o que nós aqui defendemos, é não sermos escravos de desenvolvimento tecnológico.

    Só isso.

    Não ser escravo do desenvolvimento tecnológico. Ser senhor dele.

    Ou seja, inventar o que seja REALMENTE necessário, e nada mais. E não inventar a necessidade para o novo gadget.
    Nós não precisávamos de celulares, smartphones, ipods, ipads, laptops, internet, ou nada disso quando os inventamos. Nós inventamos por pura tolice, infantilidade, curiosidade, enfim. Não por sabedoria, mas por sede de poder. E é essa sede de poder que os filmes que você considera "tecnofóbicos" atacam. Eles não atacam a sabedoria ou a busca do saber. Eles atacam a busca do poder (pelo menos, claro, os melhores dentre eles, e eu estou generalizando aqui e provavelmente defendendo filmes que não merecem).

    A ideia original da metáfora do "efeito borboleta" (a metáfora, não o filme) era dizer que "tudo que existe, afeta em tudo mais que existe ao seu redor". Era para ser uma obviedade, mas as pessoas acham que algumas coisas "não mudam nada", como as tecnologias que usamos o tempo todo. Não existe nada que não afeta nada (só o nada? ih, deu nó, hahahaha).

    Igualmente amigavelmente e em um horário e momento do dia em que eu nem deveria estar escrevendo isso aqui.

    Grande abraço,

    Felipe

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  16. Desculpe pela demora Felipe, mas só agora tive tempo de me dedicar a esse tema novamente. Vamos lá.

    1 - Sua frase foi "Quando a Igreja Católica INVENTOU O RELÓGIO, com o ÚNICO propósito de ajudar com os horários das orações," e nesse sentido, faz uma afirmação falsa. No mínimo teria que corrigir para "Quando a Igreja Católica incentivou o uso de relógios pendulares com alarmes..." ou coisa parecida, e seguramente auxiliar orações não foi o único propósito, mas certamente coordenar toda uma série de atividades não apenas litúrgicas mas também laicas.

    Ademais, em que isso implica no ruir do mundo para o qual o relógio "teria sido projetado"? (E já vimos que não o foi para isso.) Contagem de tempo é inerente a visão cristã de mundo, que diferente do paganismo, não tem visão de um universo cíclico, e sim claramente temporal, com começo e fim definidos, e essencialmente escatológico. Mesmo as posteriores acelerações do modo de vida estão simbolicamente previstas na mitologia bíblica, que praticamente introduz em nossa cultura a contagem de anos e gerações desde o Velho Testamento. Foi a própria Igreja que instituiu a contagem de anos que temos hoje e criou o calendário que usamos. Faz todo o sentido que tenha incentivado a cronometria.

    Por fim, não consegui acessar o link que forneceste, mas tenho desconfiança que as fontes utilizadas para esse argumento devem ser problemáticas.

    2 - Logo no começo do terceiro texto da séria do Gênio, http://www.xr.pro.br/Ensaios/Genio3.html há uma criteriosa distinção entre INTELIGÊNCIA, CONHECIMENTO e SABEDORIA, e deixei bem claro que o problema da misosophia e da sophofobia é com os dois primeiros, não com o terceiro. Apenas a ignorância, por vezes, costuma confundi-las, como lhe é inerente. Ademais reconheci também com muita clareza o que você diz. Cito-me: ["Em suma, podemos dizer que a cientista natural, a inventora, o técnico, são inteligentes. Que o literato, a filósofa, o erudito, têm grandes conhecimentos, e que o guru, o preto velho, a mística, têm sabedoria. "]

    E sim. Eu li seu artigo sobre a Escrita. (Não havia um link nele apontando para cá?) Em concordo em parte com ele, e penso que a primeira parte de minha monografia http://www.xr.pro.br/monografias/VERDADE.html mostre porque, ao mesmo tempo que evidencie no que me oponho.

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  17. Olá Marcus!
    Então, fui simplista na minha fala sobre a Igreja Católica e o relógio "pendular com alarme" (ou seja, relógio na definição coloquial atual), mas não falso. Não tinha porque me alongar em descrever a história do relógio mecânico e seus precursores, e as diferenças entre estes estágios, no intuito do texto.

    Sobre o impacto disso no mundo cristão, a coisa é a seguinte (E, de fato, não foi nem um pouco dentro dos objetivos iniciais da Igreja ao incentivar o relógio mecânico): A era moderna surgiu devido ao desenvolvimento da burguesia, e do poder econômico e político da burguesia. Este poder da burguesia dependeu do relógio para a medição acurada do tempo, e com isso, mais precisa atribuição de valores à mercadorias e pagamentos à funcionários. Pode-se medir a produtividade de alguém por hora, etc. Enfim, tudo que mais tarde foi resumido na máxima "Tempo é dinheiro". Apenas o tempo contado, cronometrado, pode se tornar dinheiro, e para isto o relógio mecânico foi uma peça fundamental.
    Com a ascensão do poder da burguesia, teríamos uma corrente de consequências, culminando no mundo moderno, científico, laico, atual. Hoje nossa cultura é muito mais "mecanizada" e longe das fontes cristãs de espiritualidade, e o relógio faz parte da cadeia de eventos que geriu esta transformação.

    Isso não é só o Postman que diz, qualquer historiador levanta estes tópicos, mas talvez sem comentar sobre o relógio.

    Consegui para você mais alguns links para obras completas do Neil Postman. Cuidado ao considerá-lo "problemático" como fonte. O cara foi um dos principais teóricos da disciplina da "Media Ecology".

    Tecnopólio:
    http://mafhom.files.wordpress.com/2013/06/technopoly-neil-postman.pdf

    Amusing ourselves to death:
    https://libcom.org/files/Neil%20Postman%20-%20Amusing%20Ourselves%20to%20Death.pdf
    ou
    http://zaklynsky.files.wordpress.com/2013/09/postman-neil-amusing-ourselves-to-death-public-discourse-in-the-age-of-show-business.pdf

    Sim, deve haver um link de lá pra cá. Fico feliz que tenha lido. Bom, sobre sua série do Gênio, entenda que onde você viu uma crítica à inteligência ou conhecimento em alguns filmes/livros, eu vi um apelo à sabedoria. Mas daí vale uma cerveja pra conversar caso por caso.

    Não conhecia seu texto sobre a verdade. Darei uma lida assim que possível.

    Grande abraço!

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  18. 3 - Notei um severo recuo agora na sua afirmação. Sua frase original é: "A idéia de que uma tecnologia é neutra, e portanto BOA ou MÁ DEPENDENDO APENAS de sua utilização, é uma mentira completa." E é esse o ponto relevante, pois dizer que elas causam mudanças é de uma obviedade passiva, afinal é exatamente para isso que elas surgem, para promover mudanças. Existe alguém que negue isso?!

    Portanto o único ponto onde pode haver alguma discussão é exatamente na relação de neutralidade com seus resultados ruins ou bons, e a própria essência do Primitivismo, por ser a "Vida nos Bosques" vista no mínimo como um saudoso ideal, se não uma referência de Bem, não poderia funcionar de outra forma do que vendo com maus olhos as mudanças que nos afastaram dela, e por isso mesmo deduzi que isso implica numa percepção essencialmente maléfica das tecnologias, que obviamente não são neutras no sentido de produzir mudanças. No entanto, a maioria delas leva para longe desse ideário primevo.

    Em praticamente qualquer período histórico onde haja alguma ordem social as armas brancas também eram reguladas, tanto na Europa Medieval quanto em grande parte do mundo antigo, quanto na China e no Japão somente determinados grupos sociais podiam de fato andar armados com espadas, adagas, gládios, arco e flecha etc. Claro que essa regulação varia de contexto para contexto mas afirmar que antes do advento das armas de fogo podia-se andar livremente com armas brancas é completamente falso! E nem hoje isso é verdadeiro. Existem vários locais com regulamentações claras para comprimento ou consistência de lâminas ou bastões. E mesmo onde normalmente não há um enquadramento claro legalmente previsto, como no Brasil, ainda assim qualquer um que for pego portanto arma branca dependendo do local pode tê-la confiscada ou ser restringido.

    Tudo bem que é surpreendentemente difícil acha informação precisa sobre isso na web, achei algumas em http://youtu.be/9rp3nve9CJk (também há na descrição do vídeo) e em http://www.fioredeiliberi.org/phpBB3/viewtopic.php?f=4&t=447&start=0& , que é um dos links citados em http://www.myarmoury.com/talk/viewtopic.php?p=218562

    Mas de qualquer modo isso vai contra até mesmo a noção primária do monopólio da violência pelo Estado. Ademais, armas brancas de qualidade, como sabres, espadas, adagas etc, sempre foram itens caros, só acessíveis a nobres. Qualquer plebeu que fosse apanhado portando uma arma de qualidade seria suspeito de roubo. No máximo poderiam portar armas bem mais rudimentares e ineficientes.

    E voltando ao item anterior, não vejo nenhuma relevância na discussão de que tecnologias causem mudanças ou não, é óbvio que causam, mas sim se tais mudanças são inerentemente benéficas ou maléfica, e pela sua argumentação me parece claramente implicar que o advento das armas de fogo foi sim maléfico por ter tornando mais fácil matar pessoas. Isso é perfeitamente defensável, mas também o é dizer que ele democratizou a violência, tirando a vantagem dos maiores, mais fortes ou mais habilidosos em combate. Como diz uma certa frase: "God Created Men, Sam Colt Made Them Equal."

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  19. Não tinha visto sua resposta. Mas não se apresse. Ainda estou escrevendo.

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  20. 4 - Eu não fiz esse argumento que você citou, de modo algum. Eu não disse que o advento das armas de destruição maciça foi bom! Apenas o usei, junto com o das armas químicas, para demonstrar a falha na sua afirmação de que "...um clima de conflito bélico cada vez maior, que é exatamente o que toda nova tecnologia bélica faz." , visto que foi exatamente o que não aconteceu nestes casos. E ainda deixo isso em aberto. Se a humanidade de aniquilar numa hecatombe nuclear então é evidente que o advento das armas nucleares terá sido péssimo, embora talvez inevitável.

    Mas vejamos mais informações nada menos que falsas. A populações de Hiroshima e Nagasaki NÃO foram totalmente exterminadas! Não vou nem te dar os links. Mas pode pesquisar que, nas piores estimativas, os bombardeios não mataram NEM UM TERÇO das populações que estavam nas cidades! No total, os dois únicos usos efetivos de armas nucleares até hoje não chegaram a matar 250 mil pessoas, pelas mais extremas estimativas. Pois há outras que dão menos de metade disso.

    (Sem querer usar isso como argumento, mas para efeito comparativo, o bombardeio convencional de Tokyo de 9 para 10 de março em 1945 matou no mínimo 80 mil pessoas, que curiosamente é a estimativa máxima em Nagasaki.)

    Já um argumento que pode ser usado é que os bombardeios nucleares podem ter encerrado uma guerra que poderia ter matado muito mais caso se prolongasse. A história está repleta de batalhas e cercos prolongados que mataram mais de um milhão de pessoas, inclusive na antiguidade. Será que uma demonstração de poder brutal não poderia ter encurtado o desenlace poupando vidas?

    Outro argumento é que o Projeto Manhattan é indissociável do uso de tecnologias nucleares para fins de geração de energia. Outro ainda que as armas nucleares poderiam um dia vir a nos salvar de asteróides ameaçadores etc. Ou seja, há formas de argumentar a favor do advento das armas nucleares.

    E você nem tocou na questão das armas químicas, que a meu ver é ainda mais eficiente para derrubar a afirmação de que uma nova tecnologia bélica implica em inevitável e crescente utilização. Armas químicas foram usadas em massa no início do século XX, embora já tivessem sido usada antes, mas foram praticamente abandonadas posteriormente, até mesmo na Segunda Guerra Mundial, embora todas as forças envolvidas as tivessem estocadas. O único que de fato chegou a usá-las em escala notável foi o Japão, o que, aliás, foi usado como argumento a favor da retaliação nuclear.

    Desde então seu uso continua sendo muitíssimo restrito, com o detalhe de que as armas químicas sequer tem o problema do MAD (Mutual Assured Destruction). Simplesmente não dá pra envenenar o planeta inteiro com armas químicas e qualquer superpotência poderia impunemente bombardear adversários mais fracos com agentes químicos. O que os impede são as convenções internacionais que são respeitadas na maioria das vezes.

    Por fim, temos a questão das facilitação da violência pela tecnologia. Mas isso também tem implicações no sentido contrário. Sempre me lembro de uma passagem do Pinker quando ele fala sobre o mito de que necessariamente as tecnologias implicam em violências maiores, pois um dos maiores massacres mundiais pós Segunda Guerra foi feito, literalmente, "A Facão"! http://en.wikipedia.org/wiki/Rwandan_Genocide

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  21. 5 - Eu esperava exatamente essa reação quando usei tal argumento, pois a maioria das pessoas tem mesmo essa visão incrivelmente ingênua do assunto. Mas vamos ver. Eu não disse que você não tem um alcance maior com a internet, e sim que o alcance que você tem só com ela, com certa atitude, não é necessariamente maior que o que teria sem com outra atitude.

    Qual sua estimativa de pessoas atingidas por seu blog? Digo de pessoas que REALMENTE leram seu textos? É difícil estimar, mas vamos trabalhar com a hipótese, razoável segundo minha experiência, de que eu por exemplo tenha 10 vezes mais leitores que o meu número de comentaristas. Eu teria então uns 5 mil leitores nesse meus quase 14 anos de internet.

    Mas se eu desse algumas palestras ou falas públicas atingindo cerca de 100 pessoas por mês, nesse mesmo período de tempo eu teria atingido mais de 3 vezes esse número.

    Veja bem, é claro que se, além das palestras, eu também tivesse o site, é óbvio que atingiria ainda mais pessoas, mas comparando apenas uma coisa com a outra, é incrivelmente ilusório achar que uma pessoa comum como você ou eu realmente atinge mais pessoas com a internet do que ao vivo. Isso só será verdade para pessoas famosas, que já atingem muitas pessoas e então podem multiplicar isso com a internet.

    Usamos a internet porque é muito mais cômodo! Somos os vanguardistas de uma nova tradição que não é mais oral e nem sequer literária no sentido que conhecemos, já somos uma outra coisa. Temos nossas vantagens, mas não necessariamente isso se reflete de uma forma dão direta quanto a maioria, e pelo que pude ver você mesmo, pensa, ou pensava.

    Se ao invés de se dedicar tanto a escrever e montar seu blog, você usasse todos esse tempo e algum mais simplesmente falando ao vivo em todo lugar que pudesse, poderia não só atingir mais gente com fazê-lo com maior qualidade, o que é extremamente mais justificado a adequado se a idéia central for defender a tradição oral e outras formas de primitivismo, visto que não apenas se livraria dessa tensão de usar uma tecnologia que a princípio não se encaixa bem com a proposta em questão, mas até mesmo se livraria de um inevitável prejuízo a essa proposta resultante do mero uso dessas novas tecnologias.

    Não é altamente defensável que quanto mais você escreve, principalmente na internet, mais se afasta da possibilidade de vivenciar uma autêntica tradição oral? Ou outras formas de propostas primitivistas. Não seria melhor, desde já, começar a defender tais tradições e modos de vida diretamente sobretudo pelo exemplo do que justo usando métodos evidentemente alheios, se não hostis, a ela? E mesmo que você atingisse apenas umas poucas pessoas por mês, não seria esse contato, por essa mesma proposta, muito mais rico e profundo do que qualquer um intermediado por tecnologias mais avançadas?

    Por tudo isso acho que sim, há uma tensão entre usar certas tecnologias avançadas, e defender uma série de propostas que são essencialmente estranhas, senão nocivas, à mesma. E por favor, o exemplo da comida única é sim incabível. Não se pode comparar a abstinência de algo que provocaria sua inevitável morte em poucos dias com a abstinência de algo que no máximo o deixará em má situação financeira, embora até isso seja duvidoso, mas que pode até mesmo melhorar sua qualidade de vida que pode se estender indefinidamente.

    Moradores de rua, eremitas, pessoas que vivem em área rural, silvícolas, quilombolas e até mesmo modos mais sofisticados de vida em comunidades mais restritas podem viver muito bem sem qualquer tecnologia mais avançada. E volta e meio tem gente urbana por aí largando tudo e indo viver entre eles. Existem Amishs por aí até hoje, assim como Kibutz e outras sociedades relativamente isoladas, inclusive no Brasil, como o Walachai, que vivem longe disso tudo.

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  22. Concluindo

    É evidente que as tecnologias causam mudanças, mas se tais mudanças em si são boas ou más é relativo, e não determinado pela simples existência da tecnologia. Isso porque o progresso em si também é neutro no que se refere a ser benigno ou maligno. O Bem, ou o Mal, sua ausência, são TOTALMENTE independentes de quaisquer outras coisas que não nossas relações existenciais com as outras pessoas e com a própria ideia de prazer e dor, sofrimento e alegria, bem estar etc, essas coisas que a Ética está debatendo há milênios.

    Claro que o conhecimento, a ciência, a tecnologia, tem seus impactos, mas até mesmo as mais cruéis invenções bélicas ou instrumentos de tortura só tem seu malefício no propósito concebido para seu uso, mas este é perfeitamente separável do objeto produzido em si. As funções pretendidas para alguma coisa jamais podem esgotar as possibilidades de uso possíveis da coisa em si.

    Defender que uma vida mais próxima da natureza, ou qualquer outra proposta similar a do primitivismo, sejam mais desejáveis e nos permitam maior realização e felicidade é perfeitamente cabível, mas jamais irá realmente superar propostas diversas e contrárias devido a, por si própria, implicar numa auto limitação. Os amantes do progresso e do avanço civilizacional e científico sempre irão vencer, até mesmo se aniquilarem tudo numa auto destruição, eliminariam também o adeptos dos valores contrários. Ou então todos voltaríamos para uma nova idade da pedra, mas que, inevitavelmente, progrediria de novo reiniciando nova marcha rumo ao mesmo destino.

    E se você, ou quaisquer outros, não dão esse passo rumo a uma vida realmente mais próxima de tais valores, é porque já são todos inevitavelmente civilizados, urbanos, tecnófilos por mais que não o assumam. Caso contrário, já teriam largado tudo isso como algumas pessoas de fato o fazem. Estão numa encruzilhada existencial onde tem de um lado o duvidoso futuro e do outro um suposto passado ditoso mais duvidoso ainda, e exatamente por isso, acabam seguindo, como os demais rumo ao futuro.

    Meu conselho é: Aceitem essa condição e tentem viver da melhor forma possível com ela, mesmo que enamorem-se sempre com a imagem de um suposto Paraíso Perdido e simulem uma revolta superficial contra a civilização que lhes deu esse sonho.

    Só não sofram com isso, nem se culpem.

    Amigavelmente

    Marcus Valerio XR
    xr.pro.br

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  23. Marcus,

    acho que está acontecendo um engano muito grande aqui.

    De novo, eu não falei que as tecnologias, ou novas tecnologias são más. Também não falo que são inerentemente boas, e também não falo que são neutras. Falo que trazem mudanças, e que estas mudanças devem ser sempre analisadas com cautela, o que raramente é feito hoje em dia.

    Sim, é ÓBVIO que trazem mudanças, e ótimo que você percebe isso, mas É SÓ ISSO que eu me preocupei ao escrever este artigo. Mesmo que para você ou para mim, e para muitos outros, tudo isso seja óbvio, para muitas outras pessoas não é. E cada vez mais pessoas se esquecem de perceber estas obviedades, pensando que "ainda bem que chegou o (tecnologia nova da preferência)! vai resolver nossos problemas com (algum empecilho menor da vida da pessoa que ela chama de "problema")!"

    Há uma tecnofilia em nossa sociedade, e sem dúvida você percebe isso. Esse é o problema, a tecnofilia, o tecnopolio, e não tecnologias em particular.

    Eu nunca tive a intenção de discutir profundamente tecnologias bélicas, ou o relógio, ou o que quer que seja. Procurei apenas dar exemplos, em cada instante.

    O Pinker é conhecido por manipular seus dados conforme seu desejo e argumento, e costuma não considerar a violência estatal como violência. Já discutimos bastante sobre ele no facebook.

    Você já começou falando das palestras como se eu sequer fosse convidado para dar alguma, algum dia que seja. Ou como se eu pudesse dar uma palestra em alguma instituição apenas por me apresentar: "Oi, sou o Felipe, gostaria de falar em sua empresa/escola/instituição sobre a civilização ou os perigos da irresponsabilidade perante o desenvolvimento tecnológico."
    Se eu algum dia for chamado para dar palestras sobre estes assuntos, você pode ter certeza que terá sido por causa do blog, que não é apenas a ferramenta mais comoda, mas a ferramenta mais potencializadora do esforço realizado. Atualmente, minhas únicas opções seriam panfletar nas ruas ou escrever na internet. E eu panfletei nas ruas já.
    Ou quiça sair falando em ônibus, onde me confundiriam com mendicante? Em praças, onde pareceria um louco, palhaço, ou apenas artista de rua? Desculpe o tom jocoso e irônico, não é intencional de modo algum.
    Porque sim, tudo isso são coisas interessantes, e já pensei em fazê-las também, e por vezes participei de ações nestes sentidos, mas simplesmente não pertencem mais às formas de troca cultural da nossa sociedade. São desgastantes e falamos a ouvidos surdos. As pessoas não participam mais das ruas como outrora.

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  24. Decisões culturais não podem ser modificadas com decisões individuais isoladas. Este blog, e o primitivismo, é sobre decisões culturais.

    Eu não fui morar no mato porque simplesmente ainda pretendo espalhar mais a ideia do primitivismo, e porque faço o sacrifício para ainda viver em uma comunidade. Claro que, se a comunidade continuar me enfurecendo, eu vou para o mato eventualmente. Mas não pretendo ser um solitário tal como Thoreau ou Alex Supertramp.
    Também não pretendo sair batendo nas portas das comunidades alternativas ou religiosas - posso não apenas não me dar bem lá, como posso levar problemas, e também eu na situação deles não me aceitaria, porque eles não podem inchar com cada maluco que deseja fugir das cidades até explodir.
    Contudo tenho amigos com quem converso e pretendo montar uma comunidade própria um dia, quando tivermos recursos para fazê-lo de modo "burocráticamente" certo, ou seja, diminuindo as chances de o Estado ou um capitalista um dia bater nas nossas portas para nos expulsar do nosso sonho hippie.

    E esqueça o que você ACHA que sabe sobre o primitivismo. Nós não sonhamos com um paraíso perdido e não se trata de simplesmente ir pro mato. Eu jamais escrevi uma introdução e uma definição adequada ao pensamento primitivista neste blog, e não é nas postagens sobre tecnologias que você irá nos entender. Eu não tenho uma visão infantil ou hippie sobre a natureza ou o passado, eu apenas tenho uma visão sóbria do contraste entre a vida civilizada e a vida primitiva. Com tudo de pior que a vida primitiva pode parecer prometer ao civilizado, ela tem algo que a civilização não pode oferecer: as condições para se viver de modo integralmente humano.

    É o velho conflito entre ser e ter. Mas é entre ter um sonho de poder e entre ser um participante de um bioma. O bioma está longe de te dar qualquer conforto. Mas você dá a ele o poder.
    E no momento em que se abandonam esperanças civilizadas, sonhos de poder, ou coisas do tipo, não é tão importante sair fisicamente da civilização. Ela não está só nas tecnologias, nas cidades, mas está principalmente nas crenças. Posso carregar elas para os Amish ou para os Walachai, sem intencionar. Como eles também podem ainda tê-los e não perceber.

    A perspectiva primitivista não é uma perspectiva individualista ou imediatista. Não diz, "já que isso é melhor, eu vou viver assim". É uma perspectiva que possui escala e não percebe a ação isolada como grande coisa. A preocupação é mais extensa. Nós não criamos ou entramos na vida civilizada em uma geração, com um indivíduo, e não vamos sair dela tão rápido, e infelizmente não é agora nem que o processo tem condições de começar de verdade.

    Temos condições, entretanto, de lembrar. Talvez em um momento em que uma hecatombe aconteça e voltemos todos aos paus e pedras, quando pessoas estiverem começando a reconstruir tudo, finalmente os primitivistas poderão para-los e fazê-los se perguntar, com sinceridade, "por quê?".

    Exatamente agora, você dirá que o porque é obvio, porque assim como vivemos hoje é melhor do que sem tudo isso. Porque é "inevitável", você diz, sem lembrar que a humanidade viveu sem o inevitável por muito tempo, e era humanamente feliz, embora não feliz como no paraíso prometido civilizado ou que você acha que os primitivistas dizem.

    O primitivismo não é infantil, hippie, ou esquizóide. Não é individualista como qualquer outra ideologia moderna, não é hedonista e não visa o bem humano.

    Por hora, fique com o que o primitivismo sério não é. Eventualmente estarei publicando um artigo sobre o que ele é.

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  25. Caro Felipe...

    Pessoalmente estou menos interessado no que o "Primitivismo É" e mais no que Você pensa. Discuto sempre com pessoas, não com ideologias, mesmo que as primeiras falam em nome das últimas.

    Existe uma tecnofilia, e prefiro sempre acrescentar um prefixo 'neo', mas ela não caracteriza o todo da civilização que tem também uma neotecnofobia. Aliás é um perpétuo mau hábito descrever a civilização por poucos ou um único aspecto. Tal como as sociedades e as pessoas, elas são multifacetadas e frequentemente esquizofrênicas, com posturas internalizadas contraditórias e conflitantes, e o que estamos vivenciando aqui é só uma faceta disso.

    E se digo que ninguém jamais seria contra a idéia de que o advento de novas tecnologias deva ser ponderado pela reflexão, e ele de fato o é, (Na realidade o questionamento de nossa necessidade sobre inovações é puro senso comum.) Também digo que ao mesmo tempo as abraçamos sempre que nos pareçam interessantes, as vezes irrefletidamente.

    Em parte porque o dilema entre o Ser e o Ter é frequentemente falso. O Ser só se manifesta pelo Devir, "sendo" Nada no isolamento e Estando somente na ação. E o Ter é apenas uma modalidade de Ação. Mais importa sua qualidade e quantidade. Ter recursos para subsistência, recursos para socialização, para o acasalamento, auto afirmação, Transcendência... E não só no sentido material, mas psicológico, Ter elementos mentais que o definam.

    A autoafirmação frequentemente vem por esse Ter, um possuir que por vezes manifestação externa simbólica do que se É. Mas autoafirmações maiores podem advir dessa recusa à posse, o deixar de Ter. Buda não era buda quando tinha posses, mas se tornou após deixar de tê-las. O que é mais afirmativo da natureza do Ser?

    É perfeitamente defensável que nossa busca por coisas, em especial as que civilização nos dá, sejam mera fuga de si, entes intramundanos que o Ego coloca frente o Self. Mas penso que mesmo sem essa fartura tal recurso continua disponível nos contextos primevos, e não só por fetiches materiais acessíveis a quem queira buscá-los, nem que sejam dentes de animais mortos, pinturas no rosto ou totens, dos quais muitos de nossos luxos civilizados não passam de versões mais sofisticadas. Mas também porque o Ter psíquico seja, talvez, até mais disponível. A autofirmação pelo ego, que seja de guerreiro, feiticeira, caçador etc, é até mais importante para os primitivos do que para os civilizados que disso dependem muito menos para sobreviver.

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  26. Penso que você defende algo que ainda não está claro para você, e produzir um texto sobre sua visão primitivista de certo será de grande ajuda. No mínimo irá reduzir grande parte do ruído. Recomendo confrontar mais os pontos de vista adversários. Por vezes descobrimos melhor quem somos na interação com o que não somos do que com o que pensamos ser. E já que falou no Pinker, aproveite então para estudar alguma coisa sobre ele invés de replicar mitos como este de que ele não considera a violência estatal.

    Numa livraria espie a página 99 do 'Anjos Bons de Nossa Natureza', o pequeno 'A Civilização e seus Maus Estares', que adianta parte de uma reflexão profunda sobre o assunto nas páginas subsequentes. Ele dimensiona as vantagens e desvantagens do Estado, inclusive analisando a troca da violência anárquica pela violência institucionalizada e Inter Estatal.

    E por fim, eu próprio já dei palestras, para as quais garanto que meus contatos pessoais diretos valeram incomensuravelmente mais que meus sites. E atingiram num único dia uma quantidade maior do que os sites o fariam em meses, e com mais qualidade. E eu comecei conversando pessoas. Nunca falaste de suas idéias com amigos? Nunca proclamou o que pensa perante um grupo? Não foi, dentro de um grupo, se impondo pelo discurso até convencê-los que vale a pena ouvirem o que você tem a dizer? Assim começa.

    Agora, se há uma timidez envolvida ou dificuldade de fazê-lo no contato direto, pressuposto da tradição oral, preterindo-a à internet que lhe fornece uma dimensão nova...

    Agradeça a civilização. E não ponha a culpa nela. Pois quem não faz esse contato direto aquia, dificilmente o faria num contexto primitivo.

    Amigavelmente

    Marcus Valerio XR

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  27. Ps.
    Pense mais antes de responder. Não ceda ao impulso de dar uma resposta rápida no calor do momento. Após refletir mais você certamente dará uma resposta melhor.

    Não tenho presa.

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  28. Marcus, não se trata de pressa.

    Talvez você tenha sido chamado para palestras por amigos influentes, por simplesmente dizer o que a civilização queira de fato ouvir. Argumentos para ignorar "primitivos" andam bem procurados nas prateleiras ideológicas.

    Ocorre que algumas de suas afirmações foram direcionadas à uma coletividade primitivista sim, ou de pensamento similar; Foram baseados em uma visão de senso comum (aqui sim, um senso comum bem mais arraigado do que o de crítica à tecnofilia) sobre pessoas que "gostariam de retornar à natureza" ou criticar a civilização "sob um termo ou outro"; imaginando coisas que eu sequer jamais disse neste blog, como conceitos de "Paraíso Perdido".

    E se respondi de bate-pronto é porque este tipo de fala é comum. As pessoas ouvem metade do que dizemos (ou eu digo), extrapolam o dobro, e resumem pelo simplismo que bem desejam.

    "Se você é contra a civilização, vai viver no mato!"
    "Se usa a Internet (ou o conhecimento, ou a linguagem, ou a comida, ou o que bem a pessoa quiser tirar para sacanear), agradeça a civilização, e deixe de criticá-la!" (como se uma coisa obrigasse a outra, como se eu tivesse de ter algum tipo de lealdade com isso que a pessoa, tão acriticamente como me pensa ser, chama de "civilização").

    E se você usou um tom muito mais amigável, dialético, e respeitoso, para dizer as mesmas coisas, não faz o argumento um argumento menos hipócrita.

    Eu tenho bem claro o que defendo e o que o primitivismo é (pelo menos para mim, claro). Porém se tenho que gastar letras em demasia para repetir a mais simples refutação à seu pensamento, feita já no primeiro comentário desta postagem e em prevenção desse tipo de fala, imagine a minha dificuldade em fazer uma apresentação clara de toda a ideologia por trás. Diversos autores precisaram de livros inteiros para falar exatamente isto. Outros o fazem em um parágrafo (como fiz no primeiro artigo do blog), mas cientes (como eu) que poucos entenderão adequadamente (o que pode ser pior do que ficar em silêncio). Eu tentei artigos menores de diversas maneiras diferentes, mas até agora não achei um formato adequado, a maioria se tornando demasiadamente longa (longa do tipo 3 vezes o artigo do feminismo, meu maior artigo postado até então, de um tamanho que bem sabes que não quero e não devo repetir). Minha estratégia inicial era fraccionar a tarefa, de modo a desenvolver o retrato da ideologia aos poucos, em artigos homeopáticos sobre questões pontuais de cada vez. Dessa ideia vieram os artigos sobre a questão de escala, sobre tecnologias, sobre crescimento populacional (talvez o mais próximo do cerne), sobre intimidade, pertencimento, e identidade, mas sequer metade do planejamento foi concluído quando tive de parar a minha dedicação inicial ao blog. O lado sobre evolução humana, por exemplo, é fundamental, e eu sequer comecei a publicar tudo que seria necessário falar sobre isso.

    O ritmo e o modus operandi moderno da civilização precisa de textos curtos, respostas simples, diagramas, conceitos didáticos. Tal cobrança não ajuda. Ademais, sequer mostrar o véu da civilização exige a quebra de crenças anteriores - como suas respostas muito bem atestam (e que também atestam que pelo jeito você também não está interessado em questionar suas crenças, já que sequer conhece as minhas antes de atacá-las com tom de maturidade).

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  29. Tinha quase esquecido desta discussão, e não vou retomá-la. Tentando ser breve, apenas aponto que independente de haver uma questão ideológica subjacente, fato é que há muitas informações simplesmente erradas neste seu texto. E temo que boa parte de sua percepção sobre o assunto possa ter se embasado em falseamento da realidade.

    Portanto, pesquise melhor alguns temas antes de escrever sobre eles, se os erros forem seus, menos mal, mas se forem de suas fontes, aí eu acho que você precisa revê-las com olhos mais críticos.

    Amigavelmente (quer leve sério ou ache hipocrisia)

    Marcus Valerio XR
    xr.pro.br

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  30. Pelo menos minhas fontes não são apenas a wikipedia e textos próprios ou obscuros, não é?
    Ainda bem que você não retomou a discussão, porque não há o que retomar. Você continua me vendo como um antagonista e eu ainda não entendi bem porque, afinal, você mesmo concordou que tecnologias trazem mudanças e tal.
    Creio que, no fundo, o que você quer defender e não consegue expressar em palavras é sua crença de que o desenvolvimento tecnológico, como um todo e no geral, é sempre um bem e uma benção.
    Me desculpe se, junto de muitos outros pensadores, eu discordar disso.
    E se você acha que se trata de estar certo ou errado nesse tipo de discussão, você sequer começou a entender o assunto. É uma questão de valores. Você possui certas crenças, e eu possuo outras.
    As minhas preconizam a precaução e a estabilidade cultural antes de fazer mudanças aclamadas como salvacionistas ou messiânicas pela tecnologia. E só.

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  31. Agora, já aviso que outro comentário seu no mesmo sentido será sumariamente deletado porque eu tenho mais o que fazer. Até porque você rodou, rodou e não conseguiu apontar "informações erradas no meu texto", mas perdeu seu tempo - e o meu - vindo aqui soltar ataques gratuitos mesmo quando tínhamos alcançado, ao meu ver pelo menos, uma mínima síntese argumentativa.

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