"Dê-me uma selvageria cujo vislumbre nenhuma civilização seja capaz de suportar"

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terça-feira, 14 de junho de 2016

Sociedade do Medo - Morte e Civilização (Parte 1)



"Que Viene el Coco". 
Crédito da imagem: NaomiRomero

Do que temos medo? O que fazemos diante dele? Podemos viver sem ele?
O medo, estritamente falando, é apenas uma emoção básica que todo animal saudável precisa possuir. Porém, assim como a raiva, o amor, a felicidade, e muitas outras, essa emoção pode sair dos níveis saudáveis e nos cegar. Pode atuar em maior ou menor grau em toda uma sociedade, sua cultura, seu modo de vida, e acabar por conduzir seus rumos.

Acredito não ser necessário muita arguição para indicar que uma sociedade ser guiada pelo medo pode ser um problema. Nossa história, nossos contos e fábulas, nossas vidas pessoais, todos estão recheados de casos onde o medo (assim como as outras emoções, mas principalmente o medo) nos leva à má decisões. Contudo, em um processo que não é nem um pouco recente ou inovador, nossos medos coletivos patológicos estão atualmente alcançando novos níveis.

Este “ensaio sobre o medo” acabou se tornando um tanto longo, portanto vou publicá-lo em partes, e com isso relançar o blog. Eis a primeira.


Parte 1: Morte e Civilização

 "A Loucura do Medo", Franscisco Goya.

Nossa cultura, com certeza, já tomou diversos rumos históricos exclusivamente por causa do medo. Em certo sentido, poderíamos até mesmo chamar a civilização de um “Império do Medo”, embora isso seria um recorte fragmentado. O medo provavelmente é a emoção mais forte em nossa sociedade, em qualquer ponto da história, ainda que não seja seu único motor. Também não podemos apontar que a emoção do medo, em si, criou a civilização, mas certamente é um dos seus pilares mantenedores e sustentadores mais fortes.

Em outro momento, eu comentei que a civilização é um conjunto de crenças e de modos de vida baseados em ideias de acúmulo e expansão. As ideias de expansão e acúmulo expansão são conectadas pela necessidade do controle. Controle, acumulo e expansão são consequências do medo: medo de que a natureza não fosse ser abundante o suficiente (e, portanto, precisaríamos da agricultura de larga escala), medo de que quaisquer episódios de fome seriam cruéis e infindáveis (e, portanto, precisaríamos evitá-los a todo custo), medo da morte.

Ter medo da morte é um comportamento natural? Sim e não. À rigor, o objetivo do medo é nos proteger de um dado perigo. Tememos o desconhecido, o predador, o inimigo, o veneno, a fome, a doença. Coisas que podem de fato nos matar, e o medo tem seu papel em nos ajudar a evitar estes obstáculos presentes em qualquer vida animal. Entretanto, enquanto humanos civilizados, nossa cultura gosta de se vangloriar como “a única espécie” capaz de saber que vai morrer, e por isso seria a única a ter medo da morte, portanto a única a fazer civilizações. Evidente que, como tudo mais que costumávamos pensar que “só humanos fazem”, esta peculiaridade, consciência sobre a morte, também não tardará a cair por terra.

Eu vou além e digo: nossa cultura civilizada teme a morte, justamente porque NÃO tem consciência da morte. Ou melhor, perdeu essa consciência. Nossa cultura acredita que a morte, em toda e qualquer instância, pode e deve ser evitada, e se não puder ser evitada ainda, é porque tem “algo errado” (com nossas tecnologias, com nossa vontade, com o mundo, com o progresso humano eternamente insuficiente, etc.).

Veja bem: o medo é sadio ao nos ajudar a evitar coisas que podem ser evitadas (inimigos, predadores, venenos, etc.). Mas a morte é, em última instância, um imperativo. Todos nós vamos morrer um dia. (Saber isso te faz tão capaz quanto alguns outros mamíferos complexos que também sabem disso). Mas fugir disso te faz menos racional do que qualquer animal, pois a morte é uma obviedade lógica que seu aparato mental humano é capaz de perceber, e a fuga constante dessa percepção, além de um exercício mental fútil, impede que se viva uma vida saudável – até mesmo em nível fisiológico.

Fútil porque, mesmo que sejam inventados todos os “milagres” tecnológicos prometidos a nos dar a vida eterna (a que preço?), bastaria um acidente no dia e no local errado para você finalmente encarar o que sempre evitou olhar, o fim de seu ser, ou melhor, o fim de sua identidade, de seu "ego". Como é dito no filme Clube da Luta, “em uma linha do tempo longa o suficiente, a taxa de sobrevivência de todo mundo cai para zero”. Corpos envelhecem, máquinas decaem, sistemas de segurança falham, etc. Por mais que alguém aqui na Terra possa um dia viver milênios, o fim de sua vida será a morte, cedo ou tarde.

Enquanto humanos, sozinhos ou não nisso, podemos saber que vamos morrer. Enquanto humanos, podemos ser plenamente saudáveis apenas ao aceitar esse fato. Isso é o básico necessário a um animal de pensamento complexo para não se viver em um estado de constante negação. Enquanto muitas sociedades e milênios de gerações souberam aceitar esse fato, estivemos bem. Muitos na nossa sociedade ainda sabem aceitar a morte, mas infelizmente já tem um bom tempo (uns 10 mil anos) em que as decisões e rumos têm sido tomados por aqueles que não aceitam esse fato (inclusive muitos religiosos com suas elucubrações de vida após a morte ou reencarnação, que poderiam ser vistas como um modo de “aceitar” a morte, mas fazem justamente o contrário, pois não aceitam o fim do "ego", da existência individual, que é do que a morte realmente se trata).

"Eu não temo a morte. Eu estive morto por bilhões e bilhões de anos antes de nascer, e não sofri jamais a mínima inconveniência disso." (Mark Twain)

Tal medo, enraizado na psique, se expande na busca por controle, na tentativa vã de evitar o que tanto teme. De modo que ao longo das eras esse “reinado do medo” se expressou em medo da natureza (“não entre na floresta, cuidado com os espíritos da floresta, com o bicho-papão, com o saci, etc.”), medo de diversos animais inofensivos (insetos, sapos, morcegos, entre muitos outros, se revezando na "moda do medo" entre as gerações), medo da noite ou de sair do território conhecido (“do lado de cá é seguro, do lado de lá é perigoso, não vá”), guerras preventivas (atacar antes de ser atacado) e medo de outras culturas e povos (o “selvagem”, os “bárbaros”, os “incivilizados”... e claro, os “negros assassinos”, os “imigrantes ladrões”). Exemplos não faltam, dos primórdios até os dias modernos.

Quantas guerras teriam sido evitadas, sem o medo para impulsionar o primeiro ataque? Quantos dias de escravidão voluntária, sem o medo de um 'amanhã' sem elaborada previsão? Quantas paisagens deixamos de apreciar por medo de explorar além do conhecido? Quantas pessoas deixamos de conhecer por medo da rejeição, do escárnio, da vergonha.

Que vidas não teríamos jamais abandonado, se não tivéssemos perdido a coragem e a sabedoria de aceitar as provisões que a natureza constantemente nos oferecia? Ou, nas alegadas palavras de Jesus Cristo, em uma raríssima citação religiosa no meu blog (pois sou ateu):
Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou há de aborrecer a um e amar ao outro, ou há de unir-se a um e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos da vossa vida pelo que haveis de comer ou beber, nem do vosso corpo pelo que haveis de vestir; não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta; não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à sua estatura? Por que andais ansiosos pelo que haveis de vestir? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Se Deus, pois, assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Assim não andeis ansiosos, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir? (Pois os gentios é que procuram todas estas coisas); porque vosso Pai celestial sabe que precisais de todas elas. Mas buscai primeiramente o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
(Cristo, "Sermão da Montanha", ~30 d.C., apud Mateus)
Mas chega de falar no passado. Evidente que tentar viver desse modo hoje seria mais que coragem, seria teimosia - embora seja justamente não viver de tal modo que nos trouxe à esta situação.

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Na parte 2 começo a falar sobre nossas situações atuais, aqui.

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