"Dê-me uma selvageria cujo vislumbre nenhuma civilização seja capaz de suportar"

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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Sociedade do Medo - Coragem e Confiança (Parte 4)


 
 'A profecia Hindu', Alfred Pearse.

Coragem e confiança: são apenas palavras vazias, ou valores ultrapassados? Ou, como respeito, amor, intimidade, e diálogo, podem representar formas de pensamento e de ação reais? Estamos habituados a tomar decisões baseados em medo, sem sequer perceber que é isso que estamos fazendo. Precisamos mudar nossos “conselheiros interiores” e ouvir linhas de pensamentos que possam equilibrar as tendências do medo. 

Parte 4: Coragem e Confiança

Sim, neste última parte da série "Sociedade do Medo", vou cair no clichê de, ao fim de uma série de colocações sobre realidades tristes do mundo, dar sugestões e propor soluções de "como tudo pode ficar bem", apesar de eu mesmo geralmente desgostar dessas sessões.


Coragem

"Que coragem!" de Goya

Em primeiro lugar, devemos aprender a discernir quais das nossas ações ou decisões estamos tomando com base no medo. Como regra geral, o medo é um ótimo conselheiro para decisões de pequeno alcance. Visto que sua função essencial é nos proteger de perigos reais (como disse antes: o desconhecido, o predador, o inimigo, o veneno, a fome, a doença... embora a doença seja mais frequentemente evitada pelo nojo do que pelo medo), ele é ótimo conselheiro quando tais perigos podem (e devem) ser previstos e evitados com uma decisão pequena. Exemplo: se você precisa escolher entre duas ruas a tomar para chegar à um lugar, e sabe que uma delas te levará por um bairro mais notoriamente perigoso, faz todo sentido tomar o outro rumo, mais seguro. Aliás, não tomar tal rumo seria insensato.

Porém, caso se trate de decisões grandes, do tipo que influenciam os rumos de sua vida, então evidentemente o medo não deve ser tomado como principal conselheiro. Exemplo: você precisa decidir sobre uma proposta de emprego que recebeu em outra cidade. Deixar sua cidade atual gera medo, medo do desconhecido (e do fracasso): “e se eu não me adaptar”, “e se não gostarem de mim”, “e se eu sentir saudade das pessoas daqui”. Evidente, portanto, que deixar de tomar esse rumo apenas por estes motivos seria pura e simples covardia, com o perdão da palavra (que é absolutamente necessária). Tal exemplo pode parecer banal e “coisa que ninguém faria”, mas há situações correlatas muito mais comuns. Tal controle do medo sobre decisões de grande porte pode se expressar no medo de dirigir, no medo de se relacionar, no medo da sexualidade, no medo da natureza, e mesmo no medo constante e inconsciente de sucesso ou fracasso (sim, há muitas pessoas com medo inconsciente do sucesso, e muitas mais com um medo igualmente paralisante do fracasso... afinal, sem aceitar a chance de fracasso, não se alcança qualquer sucesso).

Aqui o comportamento individual pode variar muito: um primeiro tipo de pessoas estará ciente do próprio medo, e ciente de que aquilo que este medo as leva a decidir não é o melhor caminho, contudo carecem de estrutura interior para conseguir ir contra isso. Um segundo tipo “prefere” (eu não tenho certeza que se trate de uma decisão pura) racionalizar esse medo em alguma explicação que o ajude pelo medo; tais pessoas podem inclusive negar que estão com medo da situação, percebendo isso só mediante terapia. Aqui o debate se complica, pois pode ser que existam de fato outras razões objetivas muito boas para não fazer algo, e o medo seja um indicador do perigo. Cada situação, portanto, precisa ser analisada com carinho e ponderação (papel e lápis ajudam). Consultar outras pessoas com experiências correlatas é fundamental para se perceber se um dado risco é real (medo saudável) ou imaginário (medo controlador), e se vale a pena ou não ser enfrentado (com coragem e discernimento).

Chegamos, assim, ao que considero o terceiro tipo de pessoas, no modo de reagir diante do medo paralisante. Em primeiro lugar, elas estão conscientes do medo (não há como alcançar esse comportamento sem estar consciente do que estamos temendo). Em segundo, elas sabem que ele faz parte. Faz parte da vida, do modo de ser, do funcionamento humano, do amadurecimento. Elas olham para esse medo, com sinceridade, e então tomam a decisão difícil, apesar do medo. Isso, é coragem. Como muitos outros sábios, filósofos, e escritores já disseram de modo muito mais belo do que o meu: coragem não é a ausência do medo; ela só pode existir onde há o medo, e é o ato de decidir apesar do medo. Não há ou haverá nenhum humano realmente saudável sobre a Terra que não possua medo e coragem em equilíbrio e diálogo constante.

"Coragem não é a ausência do medo, mas sim o julgamento de que outra coisa é mais importante que o medo." (Ambrose Redmoon)

Mas esta é ainda, apenas uma definição “antagônica” de o que é coragem, “aquilo que equilibra o medo”. É uma definição insuficiente. E suspeito que a definição positiva de coragem irá variar de indivíduo para indivíduo. Cada um com sua forma pessoal de entender – e obter – coragem. Para mim, nenhuma definição faz melhor do que uma das mais célebres frases de Henry David Thoreau (no livro que inspira o nome desse blog):
“Fui para o bosque porque queria viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que essa tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido”
Aos cronicamente “medrosos”, vale ainda citar algumas dicas úteis para reencontrar a própria coragem – ou reconhecer os próprios medo:

- Estude. Conheça mais o objeto de seu medo. Medo de sapos, aranhas, ou cobras? Estude e verás que não há o que temer (embora claro que algumas cobras e aranhas ofereçam riscos, tais podem ser controlados e não são motivo para pânico).
- Saia do conforto, de maneira gradual. Medo de alturas? Procure aulas de escalada. Todo medo pode ser trabalhado com algo gradual, ou “no meio do caminho” por assim dizer.
- Se fortaleça. O excesso de medo é assinatura de quem não confia em si. Medo de estranhos nas ruas? Pratique artes marciais e aulas de autodefesa.
- Treine sua atenção situacional: uma disciplina mental onde se está presente no cotidiano e atento às situações ao seu redor. Não olhando para todos os lados paranoico com ataques, mas ciente de todos os lados, atento não só a ataques, mas também a possibilidades de acidentes. De bônus, essa disciplina também ajuda a enxergar os pequenos detalhes bonitos da vida, e a proteger quem estiver contigo da falta de atenção deles próprios.

Concluindo sobre a coragem, resta afirmar que ela não deve ser usada como justificativa pura para fazer algo. Assim como o medo, é uma ferramenta. O medo nos avisa dos perigos, a coragem nos permite encará-los, se necessário for. Fazer algo para “provar que tem coragem” não costuma gerar bons resultados. Pior, pode gerar “subculturas de desafios”, como jovens que estão o tempo todo se ferindo mutuamente para ver quem “é mais ousado”, ou coisa do tipo. Certo que, em tese, a coragem pode até mesmo chegar no mesmo “trono” onde o medo hoje senta e reina a sociedade (ou a vida de uma pessoa), e provavelmente não seria um reinado muito melhor do que o do medo. Medo e coragem devem funcionar como dois lados de uma balança, e no meio, efetivamente “ponderando” ambos, deve estar a razão, junto de demais emoções. Não devemos deixar o medo ou a coragem nos levar à paralisia/estupidez (medo/coragem sem controle), a ferir nossos entes queridos (esquecendo do amor), ou a arruinar nossas vidas (esquecendo da felicidade/paz). 

Confiança 

"A figura era alta e descarnada" de Federico Castellon

Enquanto a coragem tem a função de equilibrar o medo no plano de decisões individuais, a confiança tem a mesma função no plano social – e na permissão do acesso do indivíduo a este plano. Somos uma espécie social: não se pode pensar vida humana sem convívio humano (mesmo eremitas têm seus períodos de convivência humana durante o começo da vida). Somos geneticamente preparados (seja isso bom ou ruim) para aprender com os outros, falar com os outros, sentir falta dos outros, e precisar nos sentir integrados ao coletivo.

Tal situação jamais teria se formado, ou se mantido, se não pudéssemos virar as costas uns para os outros sem temer levar uma facada ou ter sua comida roubada. Ao contrário, tal situação se formou justamente porque pudemos e podíamos dar as costas para os outros sem medo, e nos acostumar a sistemas de trocas e reciprocidade. A humanidade só é humanidade porque (graças à determinadas condições ambientais e algumas pressões) pode confiar nos seus pares, seja para coordenar caçadas, produzir abrigos, cuidar das crianças, ou se defender mutuamente. Não é injusto dizer, portanto, que a capacidade de confiar em outro humano talvez seja a característica mais preciosa da espécie.

Claro que isso não significa que devemos confiar em qualquer um, ou que não devemos tomar cuidado para traições ou golpes sujos. Confiança não é gratuita. Não é natural ou saudável confiar em qualquer um, tanto quanto não é natural ou saudável não ser capaz de confiar em ninguém. A confiança se constrói com intimidade (além de laços “instintivos”, como os entre filhos e pais/mães). Infelizmente, como já falei, a intimidade está morrendo. Decorre, portanto, que no mundo moderno já encontramos uma dificuldade maior de confiar em alguém – principalmente quando se tratam de relações amorosas.

Entra aqui também em cena a cultura do medo e dos discursos de que “toda mulher deve temer todos os homens”. Bom, vamos desarmar essa bomba. Em primeiro lugar, há que se abandonar a crença (uma crença do ideário feminista) de que homens são prioritariamente ou exclusivamente violentos: Homens não são o gênero que mais começa brigas, nem o único que comete violência doméstica, ou mata seu parceiro. Mulheres tampouco são as maiores vítimas de violência doméstica, e estatisticamente estão mais seguras em um casamento monogâmico e heterossexual do que solteiras ou em relacionamentos homossexuais - e não me entendam mal, não quero com isso atacar o homossexualismo; não quero nem pretendo que tais estatísticas sejam usadas como “filtro de realidade”, como outros costumam fazer, e as estatísticas mostradas são para quebrar os filtros de realidade que andam fomentando o medo e a falta de confiança entre casais (ou melhor, a desconfiança constante contra homens).

Continuando. O medo daquela pessoa que, por estar muito mais próximo de nós, em tese pode nos machucar mais (física ou emocionalmente), é um medo que deve ser equilibrado pela confiança, mediante ponderação da razão, enquanto evoluem os laços de intimidade, companheirismo e cumplicidade. Se você costuma ter medo de relacionamentos, talvez deva prestar atenção nesses pontos.

Por fim, resta dizer que se a confiança não é gratuita, por isso mesmo ela é valiosa. Tropeços acontecem. Inevitável que humanos convivendo eventualmente não pisem uns nos calos dos outros, por acidente. Este é um momento delicado (e que obviamente não deve ser constante, o que seria indício de um relacionamento questionável). Emoções e ânimos se exaltam, e podem inclusive ser prova do quanto um e outro são íntimos e se amam (e tais ânimos não implicam agressão física, a qual deve ser sempre proibida para um relacionamento saudável; não me interpretem mal). Neste momento delicado, o medo ou o orgulho podem falar mais alto que a confiança ou o amor. O tipo de situação onde a razão se cala e, por isso mesmo, onde decisões importantes não devem ser tomadas.

 
"Amor e morte", de Goya.

Afinal, o que cada um de nós tememos, da vida, do mundo, do futuro, ou dos outros? Estes medos são racionais ou são exagerados? O que deixamos de fazer, que experiências perdemos, quantas pessoas machucamos, ou quantos perigos nós mesmos criamos por causa do medo? Estamos deixando o volume do medo falar muito alto? Estamos deixando o medo silenciar a coragem, a confiança, o amor, o companheirismo? Estamos nos amedrontando até o totalitarismo, o isolamento, e a morte interior?

Queremos viver assim?

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