"Dê-me uma selvageria cujo vislumbre nenhuma civilização seja capaz de suportar"

PRIMITIVISMO -- SABERES TRADICIONAIS -- SAÚDE NATURAL -- EVOLUÇÃO HUMANA



sábado, 25 de maio de 2013

Maternidade humana







A maternidade, outrora aguardada e ansiada, se tornou um momento temido para muitas mulheres. As responsabilidades seriam tantas que a mente moderna fica desnorteada, de tão viciada em liberdade individual que é. O prazer, a emoção, a transformação, e a maturidade associadas ao fato de "ser mãe" são pouco lembradas. Nisso tudo, a imagem da mãe, infelizmente, é "bem" vista mesmo apenas um dia por ano, em uma data dominada pelo consumismo. Imagens cheias de mentiras e falsidades em uma época dominada pelo parto desumanizado, quase industrial. É uma desonra não só a elas, mas à própria humanidade. Pois, de um modo muito mais amoroso e doloroso do que em qualquer outra espécie, foram as mães que deram origem à tudo que podemos chamar de humano.

Isso é sério, não apenas palavras vazias. Continue lendo e conheça os fatos.


A evolução humana seguiu por alguns caminhos bem tortuosos - e torturantes. O fardo destes rumos foi pesado principalmente para a as mulheres. Primatas bípedes, pelados, cabeçudos. Menos inteligentes do que se gabam e mais violentos do que qualquer outro terráqueo. Cuja biologia é muito menos competente do que imaginam. Não é a toa que esses animais quase se extinguiram tantas vezes (e a próxima vez não está longe). Entre um gargalo populacional* e outro, tratam de extinguir outras espécies ou de inventar histórias para aliviar o peso existencial excessivo que carregam. Pois é, não é fácil ser humano, nem nunca foi. Menos ainda ser mãe.

Comecemos pela gestação. Comparando-se os nossos ritmos, proporções corporais, e taxas metabólicas com os valores de outros primatas, o bebê humano cresce como se sua mãe tivesse o dobro do tamanho que tem, e como se sua gestação fosse de 21 meses. Repare quão diferente é a barriga de uma mãe humana da barriga da fêmea de qualquer outro mamífero, mesmo que cada gravidez gere uma ninhada. Essa longuíssima e pesadíssima “gestação” é importante para o crescimento e a maturidade cerebral, cujas estruturas precisam ser formadas desde o primeiro período. Quem precisa arcar com tudo isso é a mãe, cuja fisiologia sabiamente resolve botar a criança para fora já no nono mês (pois o nascimento de um bebê de cérebro de mais de 9 meses facilmente mataria a mãe). Fora da mãe, a criança ainda é tão dependente quanto um feto por todo esse período, bem ao modo de ser dos cangurus. Seria bom se as mães atuais ainda pensassem assim e fossem mais “mães-cangurus” e menos “mães-empurra-carrinho-poe-no-cercado-e-nunca-vê-a-criança”. 


Nas figuras acima, um contraste interessante. Uma mãe tribal, uma mãe moderna. 
Uma canguru, a outra levemente robótica. E quem será que tem a melhor saúde? 
(apesar da barriguinha...)

Mas voltaremos a essa questão ao final. Após a gestação, a qual é encerrada por uma espécie de aborto espontâneo bem coordenado, falemos do parto.

Perceba a organização de nosso esqueleto, responsável pelo nosso andar bípede (em termos técnicos, "bipedalismo locomotor obrigatório" - em contraste com o bipedalismo postural de suricatos, que só ficam em pé parados, e o bipedalismo locomotor opcional de chimpanzés e gorilas, que só andam em pé por curtos períodos de tempo e quando querem). O único outro animal de locomoção realmente comparável à nossa é o pinguim. E apenas estas duas espécies tiveram uma evolução que lhes disse que era mais importante ficar em pé do que parir direito. 

("Mas o que andar em pé tem a ver com o parto?") 

A primeira e mais drástica mudança causada pela mudança na postura é a diminuição (drástica) do espaço por onde o feto (ou o ovo, no caso do pinguim) pode sair da mãe, entre dois ossos que ficam na base da coluna vertebral e articulam a coluna com as pernas. A postura ereta faz com que o espaço entre estes ossos se feche por todos os lados, gerando o primeiro trauma existencial do bebê (e, na nossa evolução, muitas vezes foi também o último, dele ou da mãe).



Nas imagens, perceba que já nos Australopithecus afarensis (representados pela Lucy - ancestrais já bípedes mas ainda não cabeçudos), o espaço entre os ossos da pelve já é bem menor do que nos chimpanzés. À direita, comparação com humanos modernos, mostrando que as mulheres possuem pelve diferente, de modo a tentar ajudar ao máximo a saída do bebê. Nesta questão também está a raiz biológica do modo de andar feminino, posteriormente alterado culturalmente com forme as modas.


Até ai, entretanto, tudo bem. Afinal, os pinguins não sofrem tanto assim, e nossos primeiros ancestrais bípedes não sofriam tanto assim. O problema começou mesmo quando começamos essa moda de gerar bebês cabeçudos (e que nem sempre usam toda essa cabeça). Surgiu um impasse evolutivo entre o tamanho do crânio do bebê (que é a sua medida mais larga, na saída do útero) e o risco à saúde da parturiente. Com o aumento do tamanho dos crânios, a anatomia feminina teve que inventar alguns truques, além da organização óssea, como a capacidade dos ossos em questão de se abrirem ainda mais (sim, dolorosamente) para depois voltarem. Os bebês também têm os seus: o reposicionamento da cabeça (de modo a saírem com o “cucuruto” pra fora primeiro, ao contrário de outros mamíferos, que saem com a face antes, de modo a respirar mais rápido); e a capacidade de seus ossos craniais de se comprimirem, não estando ainda “soldados” uns aos outros (o que também imaginamos que seja doloroso).

Que sufoco né? E não acabou ainda. Isso foi só o parto. Pelo menos a parte mais "intensa" já foi.

Depois do parto, o recém-nascido é completamente dependente dos pais. Nos outros primatas, isso significava que o bebê ficava a maior parte de seu tempo agarrado ao pelo da mãe, em suas costas. Estas, na posição horizontal a maior parte do tempo, formavam uma boa plataforma de sustentação. Os bebês eram providos de um reflexo inato para se agarrarem de maneira espantosamente forte nos pelos das mães (ou em galhos onde elas os deixassem).


Mãe e filho gorilas, se aproveitando de vantagens incríveis para a primeira infância que os humanos abandonaram: os pelos e a postura horizontalizada.


Ou seja, as fêmeas de outros primatas podiam carregar seus filhos nas costas e ainda assim ter as duas mãos livres para se locomoverem, usarem ferramentas, brigarem, etc. Nós, que “teoricamente” assumimos a postura bípede para fazer exatamente estas mesmas coisas (menos nos locomover), temos que carregar nossos filhos nos braços. Os seios maternos dos outros primatas, que ficavam mais próximos aos ombros das fêmeas (e mais próximos de um bebê agarrado neles), tiveram de descer, e depois descer mais, para ajudar a mãe na amamentação, de modo que ela pudesse amamentar sem ter que erguer tanto o filho. Ou seja, carregar o filho realmente é um trabalho e tanto (ainda que plenamente recompensador e necessário).

Não satisfeita, a biologia da nossa espécie ainda resolveu ser mais exigente e deu um jeitinho de alongar a primeira infância, período em que o bebê é 100% dependente dos pais. E alongou muito. É o prolongamento da gestação fora da barriga materna, citado acima (a "verdadeira" gestação, de 21 meses). 

Esse trabalhão todo também é uma exceção entre os primatas e entre os grandes símios (chimpanzés, gorilas, e orangotangos), cujos filhotes já ficam muito mais “espertos” em apenas um punhado de semanas. Humanos, evolutivamente obcecados por cérebros grandes (e inúteis, pelo jeito), tiveram de desenvolver o que chamamos de altricialidade secundária*. Durante este período, deveríamos nos comportar realmente como cangurus. Nossos bebês realmente estão quase tão pouco prontos para o mundo quanto os filhotes de cangurus, quando rastejam para as bolsas onde irão se amamentar, e por todo o período em que lá ficam.

O assunto encerra aqui? Não. Mas mais demais detalhes evolutivos eu deixo para os dias dos pais e dos namorados, afinal há que ser justo com eles também. Uma das áreas mais interessantes da evolução humana é a evolução de seu modo de se reproduzir único, e contar toda a história de uma vez tira a graça.

("E toda essa imagem sofrida e trabalhosa da maternidade humana é então a minha homenagem ao dia das mães? Para fazer todos abençoarem as comodidades de partos em cesarianas e coisas do tipo?")

Calma, cara-pálida. Isso é a história. Passado. Nós continuamos imperfeitos e cheios de dificuldade, mas inventamos muitas coisas para ajudar as mães. Não estou falando de cesarianas e anestésicos. Estas técnicas só proíbem uma garota de passar pelo ritual orgânico, intenso, e necessário de se tornar mãe. A verdadeira sabedoria da humanidade aprendeu já há tempos como dar assistência à mãe sem lhe roubar o ritual. Parteiras carregavam (e ainda carregam) o conhecimento de milênios. Culturas valorizavam a maternidade, dando a mãe um status novo, e  justo, na sociedade. Exercícios preparatórios específicos. Parto na água, desde o surgimento da espécie. Tudo isso participa da arte de ajudar a borboleta a sair do casulo sem lhe tirar a capacidade de voar.

("E pra quê contar tudo isso então?")

Porque nós temos muito a agradecer a nossas mães, e temos agradecido muitas vezes pelas coisas erradas e das formas erradas. As mães de outrora deram muitas vidas e sofreram muito para que a humanidade pudesse surgir, enquanto humanidade. A maternidade não é só responsabilidade e sofrimentos, nem o mundo de sorrisos "colgate" das propagandas. É participar da história da humanidade de modo que eu nem qualquer outro homem somos capazes. É belo. Mas não uma beleza falsa cheia de ilusões, anestésicos, e bebês limpinhos que nunca vomitam na mãe. Para se perceber a beleza de algo é preciso ter a coragem para vê-lo tal qual realmente é.

Por causa de tudo isso que eu digo que dia das mães é uma ofensa, uma ofensa às mães. Uma comemoração mercantilizada, que nem mesmo se recorda do que realmente significa ser mãe. Como todas nossas outras raízes naturais, a Mãe Verdadeira é uma figura esquecida. Ela não quer presentes ou parabéns uma vez por ano. Ela quer o respeito que merece. Quer o parto-ritual e não o parto-cirurgia como se estivessem doentes. Quer trocar calor com o corpo do filho a todo momento que puder, não deixá-lo distante no berço. E quer sobretudo que a honremos através do bom uso das vidas que temos. E principalmente no uso sincero destes cabeções que, depois de todo esse trabalho, parece que estão só virando enfeite de chapéu.

*Gargalo populacional: momento na história de uma espécie em que o número de indivíduos é drasticamente reduzido, eventualmente podendo causar a extinção da espécie. Geralmente ocorrem devido a eventos climáticos, mudanças ecológicas abruptas, ou a chegada de novas espécies ao ecossistema onde vivem. O último gargalo populacional humano teria acontecido há aproximadamente 80 mil anos atrás, em decorrência de um evento conhecido como Catástrofe de Toba (erupções de um super vulcão no leste da África). Alguns estudos indicam que as primeiras representações culturais humanas possuem aproximadamente a mesma idade.

*Altricialidade secundária: padrão de desenvolvimento típico do Homo sapiens em que o cérebro cresce principalmente durante a gestação e o primeiro ano de vida, fazendo com que os recém-nascidos sejam muito dependentes dos progenitores. Em biologia, é dito que um animal de desenvolvimento altricial possui prole muito dependente, de maturação tardia, ao contrário de uma espécie de desenvolvimento precoce, cuja prole é pouco dependente e/ou chega à independência locomotora e de forrageamento rapidamente. Nossa altricialidade é considerada secundária porque teria surgido recentemente em meio a um histórico evolutivo de desenvolvimento da biologia precoce, dos demais símios. E apesar de nossa altricialidade estar certamente ligada ao nosso desenvolvimento cerebral e cognitivo, essa relação não existe para as demais espécies (grandes símios, por exemplo, são precoces e de grande capacidade cognitiva).

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(Revisão finalizada no meio da madrugada, fico devendo as referências bibliográficas, assim que sobrar um tempinho as colocarei aqui. Boa noite a todos...)

3 comentários:

  1. Gostei demais, filho! Muito esclarecedor e, apesar de muitas palavras e expressões científicas, gostoso de ler e, mais ainda: concordo em gênero e gráu com várias de suas colocações, parabéns! Espero que volte logo ao assunto que, espero, não seja sòmente no dia dos namorados,que ainda está longe ou dos pais, que está mais longe ainda!Beijo!

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  2. Hola, disculpa que publique este comentario aquí, pero no encontré mejor lugar...

    ¿podríamos intercambiar semillas de frutales nativos?

    Mira: http://www.huertasurbanas.com/seeds-exchange/


    Tengo semillas de arazá rojo (psidium catleianum), guayaba amarilla-rosa, guayaba blanca, tamarillo naranja, y en unos meses tendré de:

    guaviyú (myrcianthes pungens)
    feijoa (falso guayabo, acca sellowiana)
    y quizá de:
    sete capotes (campomanesia guazumifolia)
    uvaia (eugenia pyriformis)

    Todas ellas son buenas variedades, bien sabrosas.

    ... también tengo pitangas, pero están dando pocos frutos porque todos nuestros árboles son muy jóvenes, entonces de algunos no tendré semillas para intercambio

    Quiero comentarte que lo que hago es un pasatiempo sano, pero no tan leve... con unos amigos vegetarianos estamos construyendo un "bosque de alimentos" que es un proyecto social, alimenticio y medicinal, pensamos alimentarnos 10 personas con 1/2 hectárea de frutales y hojas comestibles en 10 años; y el bosque se deberá sustentar solo, sin trabajo (al ppio será mucho trabajo...); ya lo han hecho otras personas en Inglaterra, Australia, y muchas tradicionalmente en India y otros lados (amazonas!!!);

    Quería comentarte estas cosas para que sepas que cualquier semilla que mandes estará en buenas manos!

    Por otro lado, tengo más frutales de américa del sur, pero muy pequeños, sembrados este año de semilla:

    jaboticaba vexator o azul (blue grape, es amazónico y de Venezuela sobre todo)
    jaboticaba híbrido, precoce o rojo (da frutos en 3 a 4 años, en vez de 8 a 15 como el sabará)
    jaboticaba sabara (tengo 3 plantas de 4 años de edad aprox)
    camu camu (apenas una chiquita)
    arazá amarillo (muy pequeñas, cuesta que sobrevivan)
    chamba/palillo (campomanesia lineatifolia, creciendo bien, pero es amazónico)
    chirimoya (varias pequeñas)
    guabiroba (campomanesia xanthocarpa 1 de Misiones, debe tener 2 años de edad)
    araça-una (psidium eugeniaefolia)

    y varias más que ahora no recuerdo... cedar bay cherry, key apple y esas cosas...

    El tema es que para el bosque necesitamos frutales subtropicales que resistan heladas de -5º C; en mi jardín puedo cultivar cualquier cosa (en el del fondo no baja de -3º C, pero tengo un jardín frontal que no baja de -1º C)

    En fin, espero tu respuesta (marcos@ovejafm.com)

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