"Dê-me uma selvageria cujo vislumbre nenhuma civilização seja capaz de suportar"

PRIMITIVISMO -- SABERES TRADICIONAIS -- SAÚDE NATURAL -- EVOLUÇÃO HUMANA



sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Análise tecnológica: Escrita

(Fonte: Wikipedia)
 
Hoje, podemos pensar sem letras? Ou falar sem palavras? A escrita atua radicalmente em nossa mentalidade e sociedade, de diversas maneiras. Talvez seja útil revê-las de vez em quando...

Retomo o assunto iniciado nesta postagem, meses atrás. Para sintetizar a discussão usarei a lista de perguntas que citei, criada por Neil Postman. Vale lembrar que minhas opiniões abaixo não são para serem usadas, por elas mesmas, para se estabelecer metas ou elaborar críticas conclusivas para nossa cultura. Estamos entrando em uma fase já sendo chamada de "oralismo secundário", devido às mídias digitais, e antes delas, a impressa e as escolas mexeram também muito nas relações em questão. Assim que puder falarei sobre estas outras mudanças também. Por hora, a escrita: 

1 - Qual era o problema, para o qual esta tecnologia foi a solução?

Penso que o melhor palpite é o de que a escrita foi criada para que os primeiros reis e governadores melhor organizassem suas cidades, já que o surgimento de escritas está associado com o surgimento de civilizações. Erguer uma placa com a nova proibição do dia, mesmo que ninguém pudesse lê-la, já seria suficiente para poder punir aqueles que a infringissem. Tipo de raciocínio bastante comum, ontem e hoje, e que explica a linguagem completamente alienígena usada por legisladores modernos. O que também marca a passagem das regras orais, acertadas de maneira dinâmica, para as leis inflexiveis, dogmáticas e impostas, baseadas no que "está escrito", tidas como necessárias para a burocrática vida em cidades e impérios.

Outro palpite que usa a mesma base é o de que a escrita foi criada para auxiliar os comerciantes emergentes a controlar seus bens. Estes comerciantes, no começo das civilizações, seriam os primeiros "ricaços", e teriam tido certa dificuldade em saber exatamente quantas terras, cabeças de gado, e escravos possuiam, se não dispussesem de registros. Um ponto é que o registro por escrito de grandes quantidades de posses permite que grandes heranças passem de pai para filho com menos problemas. É bem possível também que pelas suas riquezas, estes primeiros ricos tenham logo se tornado os primeiros reis.

Mas esta primeira pergunta se desdobra na discussão de qual pensamos que foi o real motivo de se criar a escrita. A idéia mais comum é a de que criamos a escrita para guardar conhecimento. O argumento de pouco fundamento. Culturas orais do mundo todo até hoje guardam seus conhecimentos apenas com o auxílio da memória natural humana, sem dificuldade. Quem é familiarizado com crianças criadas na roça sabe o quão cedo elas já são capazes de dizer todos os nomes de plantas da região, incluindo seus usos e modos de preparo. Técnicas de criação de animais, conhecimento do solo, clima, e geografia, tudo isso é herdado sem dificuldade em culturas orais (ou elas não teriam durado todo o tempo que duraram). Hoje estas culturas estão se perdendo, fato, mas porque as crianças estão crescendo em escolas ocidentalizantes, e porque a televisão e outros "brinquedos modernos" já invadiram seus lares.

Em uma definição etnocêntrica, a história é dividida em "pré-história" e "história" 
pela escrita. Isso é útil para historiadores, mas preconceituoso com as culturas orais.
Acima, o "código de Hamurabi", um dos mais antigos registros escritos existentes.
É um código legislativo. Me vêm à mente uma pergunta: 
eram muito os "analfabetos" sob esta lei?
(Fonte: Wiki)

2 - De quem era esse problema?

Portanto, o problema seria de reis e comerciantes, e assim não surpreende o fato de que tenham deixado o restante da população no "analfabetismo", durante a maior parte da "história". O restante da população não teria mesmo motivos para saber ler, a não ser para estar melhor atualizada com relação às leis que lhes eram impostas pelos governantes. De todo modo, mesmo hoje ainda não somos muito eficientes na leitura das leis, escritas em termos tão indecifráveis quanto antigamente. 

3 - Que novos problemas talvez foram criados, quando se resolveu este problema?

Neil Postmann, citando Sócrates, discute esta questão muito bem no primeiro capítulo do livro "Tecnopólio: a rendição da cultura à tecnologia". O maior problema da invenção da escrita é obviamente o abandono da transmissão oral de conhecimentos, em prol da transmissão escrita. A escrita era por excelência um código "exotérico", ou seja, feito apenas para a compreensão de poucos letrados. Os que estão excluídos do entendimento daquelas mensagens, mas que são afetados pelo conteúdo da mensagem, logo tendem à considerar muito importante saber ler. Porém o conhecimento da escrita era ensinado apenas de pai para filhos, ou de um mestre à poucos pupilos que assumiriam seu cargo, até Napoleão difundir a escolarização e com ela a alfabetização (o que não foi feito com propósitos bons, diga-se de passagem).

Mas qualquer um acostumado a comunicar idéias complexas via trocas de email ou cartas sabe o quanto a escrita é insuficiente na transmissão de idéias e conhecimentos. A mensagem escrita carece de entonação e linguagem corporal, e assim o engano na compreensão é mais regra do que exceção. Ler não significa compreender. Estar de posse de informações é erroneamente tomado como indicador de sabedoria. Celtas não adotaram a escrita justamente por esse motivo e dizem que Lao Tsé não planejava escrever o Tao Te Ching, mas foi convencido a isso por um guarda de fronteira, quando saia da China por discordância dos rumos de sua sociedade. Estas posturas são muito estranhas à mentalidade moderna que, crente do cientificismo e inundada pela internet, pensa que tudo que necessitamos para tomar decisões é obter mais informações. 

4 - Que pessoas e que instituições foram mais prejudicados pelo uso desta tecnologia?

Com a informação escrita sendo tomada como sabedoria, não mais saberemos reconhecer a sabedoria nas pessoas sábias, e iremos procurar tal sabedoria nos livros, ou em quem está de posse de tais livros. Isso obviamente prejudica pessoas sábias que não sabem escrever, e prejudica toda a cultura que estas pessoas saberiam perpetuar e proteger. Um exemplo moderno disso é a perda da sabedoria medicinal popular, nestes tempos onde supõe-se que apenas os médicos sabem sobre saúde.

Algumas religiões levaram a reverência à registros ao extremo.
O livro é tido como mais "sábio" que o humano que o lê e o interpreta.
Na figura, um homem estudado é "absorvido" pelo Corão. (Fonte: Wikipedia).

5 - Que mudanças de linguagem foram forçadas por causa das novas tecnologias?

Uma grande mudança é que a escrita ocidental, "de-trás-pra-frente", com uma estrutura lógica de "começo-meio-fim", cria uma mentalidade baseada na linearidade. Culturas orais, em contraponto, possuem uma mentalidade muito mais baseada na circularidade. O que é de se esperar, já que a vida de qualquer ser vivo pode ser melhor compreendida circularmente do que linearmente. No fim das contas nossas vidas são bem pouco "lineares", mesmo durante seus períodos mais pacíficos e racionais. Essa diferença de mentalidade é bem percebida por extensionistas que trabalham com culturas orais, especialmente quando têm que "aplicar" seus questionários. 

6 - Que tipos de pessoas e instituições ganharam algum tipo de poder econômico ou político com a introdução desta tecnologia?

Pessoas alfabetizadas e detentoras dos registros escritos logo ficam em vantagem, por mais que não haja nada realmente valioso no que possuem registrado. Estas pessoas já possuíam certa riqueza e poder antes de inventarem ou herdarem a escrita, mas na mentalidade dos empobrecidos da região, a escrita passa a ser associada com o poder, e daí é facilmente associada com o suposto conhecimento que seria necessário para se "vencer" no mundo. Os pobres, que deixam de se ver como orais para se ver como "analfabetos", começam a ter aos poucos corroídas suas tradições culturais e conhecimentos genuínos. Sua sabedoria logo será perdida, o que favorece obviamente àqueles que os querem dominar.

E a desgraça maior é eu não estar dizendo isso para eles.

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Referências:

"Tecnopólio: a rendição da cultura à tecnologia", Neil Postmann. São Paulo, Nobel.
Um trecho do primeiro capítulo, o qual foi citado, pode ser conferido em:
http://www-958.ibm.com/software/data/cognos/manyeyes/datasets/o-julgamento-thamus/versions/1
ainda que o melhor seja adquirir um cópia completa, seja do capítulo ou do livro.
Posso ajudar os interessados nisso.

"Tao Te Ching - O livro que revela Deus"; Tradução Humberto Rohden, Ed. Martin Claret, São Paulo.

http://www.druidismo.com.br/Index/Os_Celtas/Os_Celtas.html, mas também aprendi muito sobre celtas com amigos que estudam profundamente esta cultura.

10 comentários:

  1. A mesma mão que bate pode fazer um agrado.
    interessante!

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  2. Nossa, eu me interesso muito por esta questão da linguagem, Felipe; não só em um contexto amplo e social (que o seu texto explorou muito bem), mas até mesmo em um nível íntimo e mais pessoal... Para mim são fundamentais as questões levantadas no início ("Hoje, podemos pensar sem letras? Ou falar sem palavras?").Todo mundo deveria investigar sobre isso.

    Parabéns cara, sempre vejo bons textos por aqui.
    Abração!

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  3. A escrita e a fala(palavras) vem de uma raíz chamada pensamento simbólico, que vem do hemisfério esquerdo do cérebro (responsável também pela repetiçao de dados, matemática,raciocinio matemático, análise microscópica)

    Não é atoa que desde pequenas, as crianças são forçadas na escola á usarem somente esse lado do cérebro, em detrimento do lado direito, que é responsável pela filosofia, análise sistemica, holística, não linear. O resultado planejado pela elite com isso nas escolas é apenas um: controle e submissao ao sistema escravo.

    O pensamento simbólico é extremamente prejudicial, uma vez que torna alguma experiencia do mundo real em um símbolo, transmitido por palavra, escrita ou imagem padronizada.

    Nossa verdadeira inteligencia é o instinto, cada vez mais que tentamos resolver as coisas com o pensamento simbólico, criamos mais problemas.

    Recomendo a leitura dos textos de John Zerzan:
    Too marvelous for words (A linguagem brevemente revisada) - John Zerzan
    Correndo no vazio! O fracasso do Pensamento Simbólico - John Zerzan
    Além do Pensamento Simbólico - entrevista com John Zerzan - Kevin Tucker

    Todos disponíveis em https://ervadaninha.sarava.org/biblioteca.html

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  4. Olá pessoal!

    Thales, talvez eu tenha deixado a desejar nestas questões que coloquei no começo, né... são questões para as quais penso que dificilmente teremos alguma resposta, pelo menos alguma que possa ser dita, ou escrita. Mas realmente vale a pena meditar sobre elas, e treinar outras maneiras de pensar. Quem estuda teatro têm uma dinâmica que ajuda nisso, que é a brincadeira de tentar falar em uma lingua desconhecida, inventada na hora, sem ficar repetindo termos e tentando ser coerente. É bem bacana.

    Ludson, obrigado pelas referências do Zerzan. Mas vamos com calma para não assustar o pessoal. A crítica de Zerzan é pertinente, e temos que tentar readquirir processos mentais que perdemos ao longo da história. Concordo que nossa sociedade só se preocupa com este desenvolvimento mental analítico, e isso é ruim. Mas acho que também é ruim tentar negar completamente o uso dessa capacidade, afinal, é ainda metade de nosso cérebro, mesmo que sendo muito mal usado. Podemos resolver problemas usando esta e outras inteligências. Claro que solucionar problemas sempre causa mais problemas, mas acho que isso ocorre porque a vida é assim, e problemas são inevitáveis (e quem recusa viver com um problema inicial acaba ganhando dois ao final). Além disso, falar sobre instinto é complicado. Hoje em dia este termo não é mais apropriado para falar de outros animais, mais dificil ainda será aplicá-lo à nós. Mas não me entenda mal. Eu penso que o problema apontado por Zerzan é real sim, só enxergo que devem ter existido causas ecológicas que nos levaram a entrar nessa barca do pensamento simbólico. Mas se falar muito estarei me alongando demais. Prometo que falarei mais sobre isso em uma postagem futura.

    O comentário anônimo me deixou na dúvida quanto ao que ele queria dizer (típico da escrita, rsrs). Mas, caso ele esteja se referindo a idéia de que uma tecnologia pode fazer o bem e o mal, eu sou um pouco contra essa idéia, e falei mais sobre ela na primeira postagem sobre tecnologias:

    http://vida-nos-bosques.blogspot.com/2011/07/mas-e-essa-tecnologia.html

    Abraços!

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  5. À propósito, o blog precisará ficar mais alguns dias sem atualizações... (estou em fase de fechamento da minha monografia de conclusão de curso)... Mas assim que voltar, força total, com novo visual e elementos.

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  6. Nunca tinha parado para pensar sobre isso!
    Gostei mto da reflexão, acho que com a correria do dia a dia, não sobra muito tempo para pensarmos sobre coisas tão importantes como esta!
    Obrigada por compartilhar!

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  7. E os grandes mais uma vez encontram uma maneira legítima(na visão construída por eles)de oprimir, de estigmatizar e dominar. Adorei, Felipe!!!

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  8. "Quem escreve", meu email é felipebeltrao@hotmail.com
    Fique a vontade para me contactar por lá.

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